Resenha: Árvore e Folha, de Tolkien

Existe alguém melhor para falar sobre contos de fadas do que o mestre J. R. R. Tolkien? Pois bem, neste pequeno livro, chamado Árvore e Folha, ele discorre sobre a natureza, origem e funções dos contos de fadas, em um ensaio bem complexo, apesar de curto. Além disso, essa edição da Martins Fontes traz o conto "Folha, de Migalha", que segue o exato modelo proposto por Tolkien no ensaio.

Que capa maravilhosa, gente!


O ensaio "Sobre contos de fadas" gira em torno de três perguntas: 1. O que são contos de fadas? 2. Qual a sua origem? 3. E quais os valores e as funções deles? A princípio, o autor desmistifica muito do que se diz a respeito, e percorremos juntos dele um caminho lógico e brilhante para a compreensão de que contos de fadas não são histórias sobre fadas. Na verdade, há uma confusão sobre esse termo devido ao erro de tradução da palavra faierie (Faërie), que significa Reino Encantado, não fadas. Então contos de fadas não seriam histórias de duendes e criaturas minúsculas entre arbustos, mas uma história que se passa no Reino Encantado, onde é possível a existência desses seres (fadas e elfos). As histórias que relatam sonhos e coisas afins também divergem muito da Fantasia propriamente dita, pois esta é uma arte racional, não irracional, eis por que as histórias de Lewis Caroll não são contos de fadas, as fábulas de animais também não o são. Todas essas histórias sobre seres diminutos, sonhos e animais são encantadas e ficcionais, mas, para ser conto de fadas, é preciso que toda a magia seja real naquele contexto.


Tolkien também explica por que essas histórias não deveriam ser especialmente associados às crianças. É certo que ter o coração de uma criança é necessário para entrar no Reino Encantado, mas isso significa ter humildade e inocência. Não significa ausência de crítica, mas possuir aquele espírito infantil que, como disse Chesterton, é inocente e ama a justiça, ao passo que a maioria de nós é malvada e naturalmente prefere a misericórdia. O ponto não é que adultos são malvadões e crianças devem viver numa eterna síndrome de Peter Pan, mas sim que crianças devem crescer e os contos de fadas podem ensinar-lhes uma ótima lição: "que, à juventude imatura, indolente e egoísta, o perigo, o pesar e a sombra da morte podem conferir dignidade e às vezes até sabedoria." Isso é importante para o crescimento, mas os maiores valores que o Reino Encantado pode trazer são coisas de que os adultos precisam ainda mais que as crianças: Fantasia, Recuperação, Escape e Consolo.
"Numa toca no chão vivia um hobbit..." O Hobbit, J.R.R. Tolkien

O livro nos mostra que a Fantasia é a atividade humana natural. Que enquanto há humanidade e, consequentemente, Razão, melhor será a fantasia produzida. E se chegarmos ao ponto da nossa busca pela Verdade definhar, a fantasia pereceria com ela. Além disso, ela é uma forma superior de arte, a mais próxima da forma pura, e por isso (quando alcançada) a mais potente. Acima de tudo, a Fantasia é um direito nosso, e isso remete também à sua origem (que não pode ser traçada precisamente), pois ela existe como reflexo do reflexo de Deus no homem. Se somos feitos à imagem e semelhança de um Criador, nós subcriamos. Por isso a Fantasia segue o padrão evangellium de: criação, queda e redenção (eis a origem dos finais felizes). Assim, os contos de fadas têm uma função bem parecida com a do Evangelho: suscitam escape da Morte e o consolo do Final Feliz (uma alegria que não é escapista nem fugitiva).

A conclusão a que Tolkien chega é belíssima e vocês precisarão ler para sentir a mesma emoção, senão perde a graça do livro, mas posso dizer que tem muito mais dessa ligação entre a Fantasia e o Evangelho. Temos aqui um livro com todas as chaves para desvendarmos o mistério dos contos de fadas, mas que deixa uma lacuna que só nós mesmos, com o uso da nossa cabecinha, podemos preencher. É o que ocorre com o conto que sucede ao ensaio: se entendermos bem este, o porquê daquele conto estar ali fará todo o sentido. Inclusive o Folha é considerado a única narrativa escrita por Tolkien que contém uma alegoria à sua própria vida. Sem contar a correlação entre os nomes Árvore e Folha, que, quando nos tocamos dela, vem aquele sentimento de "aaaahhhhh" (vocês entendem, né? haha). Por fim, deixo esta carta de Tolkien para um homem que descreveu o mito e o conto de fadas como "mentiras":

"Meu caro,
Embora alheado, 
o Homem não é perdido nem mudado.
Sem graça sim, porém não sem seu trono, 
tem restos do poder de que foi dono:
Subcriador, o que a luz desata
e de um só Branco cores mil refrata
que se combinam, variações viventes
e formas que se movem entre as mentes.
Se deste mundo as frestas ocupamos
com Elfos e Duendes, se criamos
Deuses, seus lares, treva e luz do dia, 
dragões e plantamos - nossa é a regalia
(boa ou má). Não morre esse direito:
eu faço pela lei na qual sou feito."

Que a fantasia não morra, porque a existência humana está atrelada a ela e, por consequência, a nossa redenção, enquanto seres na Terra e enquanto seres do Céu.

O clássico conto de fadas Branca de Neve (Schneewittchen), dos irmãos Grimm,




Você pode encontrar esta obra aqui, assim como na livraria Travessa e na Estante Virtual (corram, porque está esgotando em tudo que é canto).
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