Resenha: Anna Kariênina, de Liev Tolstói

"Toda as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." Esse é um dos começos mais famosos da história da literatura, e é assim que dá início um dos maiores e mais apreciados romances de todos os tempos: Anna Kariênina, do russo Liev Tolstói. Ouso dizer que este livro é até melhor que outra obra-prima do autor, Guerra e paz, não sei se pelas personagens serem mais atrativas ou mesmo as tramas me prenderem mais. De toda forma, é certeza que qualquer amante de boa literatura se apaixonará por este livro.


Anna Kariênina se passa na Rússia do século XIX e é basicamente um romance sobre a sociedade russa da época, os estilos de vida de seus cidadãos, na cidade e no campo, e trata de assuntos como família, fé, desejos, hipocrisia, fidelidade... Eu não contarei a história passo a passo, por motivos óbvios, mas deixarei uma pequena síntese aqui, para ficar mais claro o que escreverei depois: o livro gira em torno de dois centros principais, o do personagem Liévin e o de Anna Kariênina, mas ambos estão relacionados e constantemente se encontram e misturam-se. Liévin é um proprietário de terras apaixonado por Kitty, irmã de Dolly, que é esposa do irmão de Anna. O livro leva o nome desta pois retrata muito o caso extraconjugal (sem meias-palavras, o adultério) entre ela e Vrónski, mas Liévin é evidentemente mais significativo, não só para o livro, mas também fora dele, considerado um dos personagens mais importantes da história da literatura.

A partir disso, focarei primeiramente no centro de Anna, para falar de algo que, para mim, protagoniza todo o drama dela: o salário do pecado. Antes de ler a obra, imaginei Anna Kariênina como uma personagem desprezível, tal como Emma Bovary (Madame Bovary, Gustave Flaubert). Engano meu. Anna era uma amor de pessoa, encantava todos que a conheciam, pois tinha um bom coração e falava de maneira natural, inteligente e despretensiosa; não era desprezível, tornou-se. Ela casou nova, com um funcionário público muito importante e bem mais velho, Aleksiei Aleksándrovich, e com ele teve um filho, Serioja. Aleksiei tinha um jeito muito arrogante de falar, o que irritava a esposa. Esta nunca foi um mulher apaixonada pelo marido, mas ao se apaixonar por outro homem, os defeitos antes toleráveis do esposo tornaram-se motivo de repugnância para Anna, a ponto de desprezá-lo.

Seu amante Vrónski a conquistou com um gesto de caridade em um acidente de trem que eles presenciaram juntos (apesar de tê-lo feito apenas para impressioná-la). Imaginem um ser que defendia o "deixar-se levar pelos desejos sem pudor", com um falso amor pela verdade e orgulho pela própria falta de moralidade, este era Vrónski. Mesmo querido por - quase - todos, mesmo apaixonante até certo ponto, mesmo responsável, a sua falta de escrúpulos não permite que o leitor sensato o suporte. Mas Kariênina apaixonou-se perdidamente, e foi recíproco. De início, ela relutou, tinha que pensar no casamento, no filho, na sociedade, o que nunca foi objeto de reflexão por parte de Vrónski. Para ele, "aprisionar-se" a essas coisas seria viver uma mentira (eis por que listei o falso amor pela verdade no rol de seus defeitos).

Quando fazemos algo errado, muitas vezes tentamos manipular a nossa consciência para nos sentirmos melhores. Assim também Anna criou mecanismos de defesa contra o marido e a própria consciência, tudo para não se sentir culpada pela situação. Com o tempo, tornou-se cada vez mais infeliz. Por pressão do marido, da sociedade, do amante? Pela falta do filho? Ainda que ela amasse de verdade o filho, deixá-lo foi uma escolha, ela não podia ter os dois. E no fundo ela sabia disso. Não, o que a deixava infeliz era a voz da consciência. E não compreender isso foi a sua perdição.

Seu imediatismo também a fez passar por situações humilhantes na sociedade. Claro que havia muita hipocrisia nesta, mas a insensatez de Anna não ajudou nem um pouco. Até Vrónski era um pouco mais sensato que ela sobre a real situação deles na sociedade. Mesmo assim, o quadro deles melhorou aos poucos, recebiam visitas de amigos/parentes queridos, tudo se encaminhava para o que Anna queria. Mas a felicidade não veio com isso. Pelo contrário, ela tornou-se cada vez mais egoísta, sentia compaixão por si mesma. Tudo estava se encaixando, mas os delírios de ciúme surgiram apesar disso, ela chegou à quase loucura, tudo por conta da consciência pesada. Afinal, não havia outra explicação para suas atitudes, ela já nem sabia mais o que queria.

Diante de situação, o seu esposo Aleksiei revelou-se alguém muito piedoso perante o sofrimento alheio. Por mais dor que sentisse, mesmo tentando esconder, ele ainda se compadecia por Anna. Sua evolução como homem e cristão é evidente. Dolly teve uma forte influência sobre ele ao falar de perdão, o que se contrapôs à influência negativa de uma certa amiga. Não sei se ficou claro para todos os leitores, mas para mim a Lídia era mesquinha e dar ouvidos demais a ela era um erro. De todo modo, de maneira geral, a conduta de Aleksiei foi admirável. Muitos o condenam por não abrir mão do filho, o que causou muito sofrimento a Anna, mas era direito dele, enquanto vítima da traição, ficar com a criança. Foi uma escolha acertada. Se Serioja tivesse ido com a mãe, sofreria mais, pois enfrentaria todos aqueles desvarios e acabaria como sua irmã, preterido.

Chegou ao ponto em que Anna tornou-se incapaz de amar, até mesmo os fortes sentimentos que nutria por Vrónski não passavam de paixão desregrada, que a cegava em relação a tudo que deveria ocupar o centro da sua vida, como a sua filha (já que o filho havia perdido). Ela revelou um lado novo: acreditava conquistar a todos com a sua boa aparência. Ela era linda, todos os homens a desejavam e todas as mulheres deveriam ter ciúme dela, por isso Vrónski deveria ser grato, embora não estivesse agindo conforme a sorte grande que levou. Estava delirando.

Keira Knightley interpreta Anna Kariênina no filme homônimo de Joe Wright, em 2012.

Diferente do que falam, Anna Kariênina não é uma mulher forte. Ela se deixa levar pelas vontades, cria malabarismos para enganar a própria consciência e não tem controle emocional. É uma mulher fraca, com certeza, pois fazer somente o que ela quer não é sinal de força, pelo contrário. Deixar-se levar pelos desejos passionais é negativo, apesar da insistência dos leitores de Tolstói em afirmar o contrário. Se alguém como Anna (ou Emma Bovary, ou Marcela) é símbolo feminista, fazemos bem em querer distância disso. Essa falsa satisfação de fazer exatamente o que tem vontade, sem pensar nos demais ou nas consequências, pode até mascarar a intensa tristeza por trás disso, mas não engana quem tem visão de vida eterna.

Para bons entendedores, o salário do pecado é a morte, não é? Mas calma, isso não é spoiler, basta um pouco de conhecimento bíblico aplicado ao universo literário que vocês compreenderão melhor. Anna se perdeu nos seus erros, até que chegou a um caminho sem volta que só restou para ela dizer: "Deus, perdoe-me tudo!" Não conhecemos o que se passou pelo coração de Anna, nem mesmo a sinceridade do seu arrependimento, mas uma coisa certa é que sua historia diz muito sobre os frutos da queda. Este foi o salário do pecado de Kariênina: a sua ruína enquanto pessoa.

Agora vamos conversar sobre um dos mocinhos mais incríveis da literatura: Liévin. Se por um lado temos a decadência de Anna, pelo outro temos a transcendência de Liévin. Ele não era um herói perfeito, nem na aparência nem na personalidade, os conflitos interiores que ele vive ao longo do livro faz com que não só o tomemos como exemplo, mas nos enxerguemos nele. Liévin é gente como a gente. E todo aquele que já parou para refletir sobre o sentido da vida se identificará com ele.

As suas opiniões únicas o destacavam em qualquer discussão, inclusive seus diálogos eram de dar inveja, pois citava Platão e Dickens com tamanha naturalidade que a gente pensa: por que na minha vida eu não converso assim? Sem contar a visão crítica e sábia que ele tinha sobre a vida, Evangelho, casamento, o campo. Mesmo nobre, ele tinha consciência social, sem se aproximar dos ideais comunistas. Mesmo sem fé, ele entendia mais de cristianismo que a maioria das personagens hipócritas e torpes do livro. Sua disposição de doar-se aos outros mostra o quão importante o sacrifício é para a felicidade na família. Kitty foi agraciada, e ao longo da história percebemos o quanto ela tomou consciência disso. A única parte do livro que pode causar um certo cansaço são as longas descrições sobre a vida no campo e agricultura, paixões de Liévin, mas ainda é prazeroso, porque é necessário. Esse contraste entre a vida na cidade e no campo foi essencial para entendermos de fato como funcionava a Rússia na época. Se você não gostar dessas partes, tenha paciência e continue a leitura. Valerá a pena no final.

Com Liévin, percorremos o caminho até a profissão de fé, o que só foi possível com uma fé já enraizada, ainda que esquecida, dentro dele. Sua luta espiritual é perturbadora, mas a conclusão a que ele chegou foi causa de um dos finais mais arrepiantes, belos e verdadeiros que já li. Liévin finalmente compreendeu.

Ao fim do livro, sinto a obrigação de discordar de Tolstói naquela frase que inicia a história. As famílias infelizes de Anna Kariênina padecem todas no desespero da culpa e da desconfiança. São todas iguais no sofrimento. Já a família de Liévin é incomparável no seu esplendor. Todos têm anseio de encontrar alegria e satisfação, e os modos de fazê-lo variam. Quando nosso objeto de devoção, de esperança e/ou de amor é alcançado, o impacto em cada um é diferente, proporcionando-nos uma felicidade única. Cada família feliz é feliz à sua maneira. E isso me lembra muito uma frase de C.S. Lewis: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!" Ser bom é o que nos faz diferentes uns dos outros, os maus são todos iguais.

Com Anna Kariênina, Tolstói entrou para o meu Top 3 de escritores favoritos. Ainda que sua vida estivesse afundada em ideologias condenáveis, a grandiosidade da sua obra é digna da mais sincera admiração. O paradoxo do comunismo e cristianismo unidos em sua mente ensejou a criação de romances inexplicavelmente coerentes. Não se assustem com os temas pesados de traição, morte e pecado, muito menos com as horríveis personagens que compõem a obra, pois como escreveu Ruy Castro na sua biografia de Nelson Rodrigues: "a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No ‘Crime e Castigo’, Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los."



Essa minha edição belíssima é da falecida Cosac Naify. Todo o seu estoque foi vendido para a livraria virtual Amazon, mas atualmente este livro está indisponível. É sinal de que está acabando. Não percam essa edição, a tradução é bem prestigiada, então corram aos sebos e fiquem atentos às livrarias.
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