Resenha: Guia politicamente incorreto da Literatura, de Elizabeth Kantor

Quanto tempo, meus amigos, estava com saudades! Retorno ao blog hoje com uma indicação maravilhosa: o Guia politicamente incorreto da Literatura, da incrível Elizabeth Kantor. Essa autora escreve muito bem, sobre coisas muitos importantes e de maneira divertidíssima. Da mesma forma de A Fórmula do Amor, o Guia nos traz as verdades universais presentes na literatura. Este livro, mais especificamente, ensina o que os professores politicamente corretos omitem e/ou distorcem da literatura inglesa e americana. Se você ama literatura e percebeu o quão longe os cursos de Letras (dos EUA, do Brasil e do mundo) estão de ensiná-la, leia Elizabeth Kantor urgentemente: não é um livro para falar mal de certos professores, é uma verdadeira introdução à literatura inglesa e americana.


O livro é dividido em três principais partes: o que eles (professores politicamente corretos) não querem que você aprenda com a literatura inglesa, por que eles não querem que você aprenda sobre ela e como você pode ensiná-la a si mesmo. De início, somos introduzidos ao cânone: de Beowulf a Flannery O'Connor. A maior parte do livro é dedicada à discussão sobre o que podemos aprender (mas não estamos) com os grandes autores e poemas ingleses e americanos. Há autores da antiguidade até o século passado, em uma lista completa e irretocável do que não podemos deixar de ver dessa literatura.

Na literatura inglesa antiga, encontramos um amor ao heroísmo há muito esquecido, ou mesmo condenado, pelos gurus da "teoria literária" (o que, na verdade, é marxismo, feminismo e todos os ismos que mais estragam a literatura do que a explicam). A união entre paganismo e cristianismo na literatura antiga trouxe poemas cheios de heróis que nos alertam sobre nossas próprias falhas, nossa indisposição ao sacrifício e falta de admiração a esses homens elevados, assim como refletem a força civilizadora que é o Cristianismo. Já no medievo, temos uma literatura inserida em uma mentalidade completamente religiosa, a exemplo dos Contos da Cantuária, de Chaucer. A sua obra está voltada para a eternidade de tal maneira que os conceitos de liberdade, autoridade e cavalheirismo presentes nela são válidos até hoje e, ao longo da história, proporcionaram muitos avanços além da literatura.

Uma grande época para literatura inglesa foi o Renascimento, por meio de Spenser, Marlowe e Shakespeare. O humanismo cristão estava vivo na sua arte, ainda que não na sua vida. Aqui, a sociedade já não era oficialmente religiosa, tanto que o homem Marlowe era revoltado contra Deus, a verdade religiosa e a virtude, mas "o artista Marlowe sabia que sem tais conceitos, sua arte não poderia ir muito longe". Já William Shakespeare, o maior escritor da língua inglesa, trouxe verdades universais de forma tão profunda na sua obra, que até hoje encontramos atualidade nela, porque mostra e ensina o que, de fato, a natureza humana é. Por isso qualquer pessoa que lê Shakespeare se identifica, porque há muito de ambição, ciúme, morte, casamento, natureza e condição humanas. São os grandes vícios e virtudes humanas de forma bela e poética. Shakespeare escreveu sobre o que é verdadeiro, por isso os que desprezam a verdade o odeiam. Não é à toa que existem inúmeros artigos acadêmicos tentando desmoralizar, corromper, quando não ignorar, toda a sua obra.

Ophelia (personagem da tragédia Hamlet, de William Shakespeare), por John Everett Millais.

No século XVII, o tema da religião volta a ganhar força, pelos grandes Milton, Bunyan, Donne etc. Em Paraíso Perdido, John Milton (que seria acusado hoje de fundamentalista cristão) reescreve a tentação do homem, e seus sonetos destacam os temas da temperança e obediência. "O ideal heróico de Milton é a obediência paciente". Ele também pregou a liberdade intelectual e de imprensa, o que revela ser esta mais cristã do que anticristã, como juram os professores politicamente corretos. No século seguinte, com o advento do iluminismo, temos a era da razão, que todos consideram extremamente revolucionária, mas na qual temos grandes gênios literários que seriam considerados, hoje, muito mais reacionários do que qualquer coisa. Kantor separa quatro: John Dryden, Alexander Pope, Jonathan Swift e Samuel Johnson. Com a literatura inglesa do Iluminismo, aprendemos que "realismo, senso comum e bom humor são mais importantes para a vida do que vitimismo, pensamento positivo e culpa burguesa" (mas não vão te ensinar isso). Contudo, apesar de revigorante, a literatura do século XVIII é muito limitada no que se refere às texturas literárias da literatura renascentista ou da literatura romântica subsequente.

A literatura romântica do século XIX só se comparou à literatura renascentista, e os nomes ingleses que podemos tirar dela são muitos: William Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats, Jane Austen, Dickens e tantos outros. Jane Austen, por exemplo, acho que foi a maior vítima dos delírios do politicamente correto, a ponto de a apontarem como uma autora feminista (olhem só o nível da coisa). Enquanto ela celebra os valores patriarcais, eles acham que ela os condena e este é o centro da sua obra. Assim, ela certamente não é uma autora negligenciada pelos professores modernos, mas sua obra foi distorcida em proporções gigantescas. O pecado individual como causa da miséria humana, o casamento como meta de felicidade, a necessidade dos homens estarem mais no controle e o perigo das "mulheres que falam demais" estão presentes em seus livros não como crítica social, mas como celebração desses valores. Basta lê-la que você percebe, sim, muita ironia e crítica social, não aos valores tradicionais, mas à superficialidade, pretensão, egoísmo masculino, hipocrisia feminina e por aí vai. "Jane Austen não é 'subversiva'. Jane Austen é engraçada." Deste período, outro autor incompreendido (propositalmente mesmo) é Charles Dickens. Seu legado segue o clássico "a mudança começa dentro de casa", mas ainda há quem acredite que ele pregava revolução social. Pelo contrário, de suas obras, tiramos a lição de que até as ações aparentemente boas podem ter consequências catastróficas, até piores do que o que tentavam combater.

Os vanguardistas e estetas do século XX seriam um prato cheio para os amantes da decadência humana - e literária -, se eles não tivessem todos se convertido ao Cristianismo, a exemplo de Oscar Wilde. Assim sendo, temos uma literatura que vai muito além de incomodar e irritar, mas que considera a tradição necessária para a criação da grande arte, como em Evelyn Waugh e T. S. Eliot. E por fim, Kantor seleciona o que de melhor há na literatura americana, embora tão negligenciado pelo professores em troca de baboseiras politicamente corretas das últimas décadas. Poe, Melville, Mark Twain, Dickinson, Whitman, Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, O'Connor e outros grandes autores americanos talvez sejam tão esquecidos nos cursos de Letras pelo mal presente no coração humano que eles tanto revelam em suas obras. Elizabeth conclui o cânone inglês e americano da literatura falando sobre a obra de Flannery O'Connor: "Quanto mais distante estivermos de entender o pecado original, verdade primordial da natureza humana, mais violenta deve ser a intervenção da graça - e da literatura - para chamar nossa atenção".

Anne Hathaway interpretando a Jane Austen no filme Amor e Inocência.

Na segunda parte do livro, a autora fala por que esses professores PC não querem que você leia - e aprenda - literatura inglesa e americana. O porquê está no que dizem os alunos manifestantes de Stanford em passeata com Jesse Jackson, em 1967: "Hey, hey, ho, ho, a Cultura Ocidental deve acabar". Se o objetivo é desconstruir conceitos, mudar a sociedade e negar a realidade, somente destruindo a civilização ocidental isso é possível. E a literatura é uma das grandes bases dessa cultura, por isso ou a negligenciam ou a deturpam. E se surgir a questão "mas para que serve mesmo a literatura?", William Faulkner, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de 1950, responde: "Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque entre as criaturas ele tem uma voz inexaurível, mas porque tem uma alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando a coragem, honra, esperança, orgulho, compaixão, piedade e sacrifício que têm sido a glória de seu passado." Com os grandes clássicos da literatura, encontramos beleza, verdade e bondade, o que é preciso esquecer quando se tem como meta destruir uma civilização construída sobre esses pilares.

Por fim, a terceira parte dá algumas dicas para quem quer aprender literatura inglesa e americana, já que ninguém há de ensinar. Estes conselhos são dados pelos próprios grandes autores (bons escritores são sempre bons leitores): leitura atenta ou análise estrutural, assim, nenhum aspecto das obras serão ignorados, já que nenhum é insignificante; e a regra de Reed, que consiste em questionar sobre cada parte das obras que lemos. Também temos alguns passos a seguir para a análise literária de uma obra: 1) uso do dicionário para entender o significado e origem de cada palavra contida, em suma, o domínio do vocabulário e da gramatica; 2) entender um pouco de métrica e rima poética, além dos gêneros literários. Mas, no fim, a melhor forma de se aproximar das obras literárias é decorando os textos, assistindo às peças e conversando sobre os romances. Não há escapatória: para entender uma obra, é necessário entrar nela. Para entender um artista, precisamos ser um pouco artistas também. Decore, atue, recite, crie clubes de leitura, discuta os livros, pense sobre os personagens como se fossem reais. Isso não é bobagem, era exatamente o que Jane Austen fazia.

Essa obra é uma daquelas que o nosso espírito anseia há muito tempo para encontrar e, quando a hora chega, a leitura não é só prazerosa, mas imprescindível para continuarmos a viver. As análises de Elizabeth Kantor sobre a literatura são mais que incríveis, porque ela está atenta a cada detalhe que, muitas vezes, deixamos passar. Ainda que você seja politicamente correto, ainda que tenha birra com a série de "guias politicamente incorretos", não deixe de ler. As grandes verdades universais da literatura estão resumidas nele e, mesmo que as ignoremos, só a quantidade de valiosas dicas de leitura já vale mais que a maioria dos best-sellers que circulam no mercado editorial brasileiro. Que nos voltemos para o poder transformador da literatura de trazer beleza e virtude a esta vida passageira e cheia de superficialidades, pois as "grandes obras de literatura nos ensinam a amar o que é nobre e a desprezar o que é ordinário; elas nos civilizam."



Você pode encontrar essa obra aqui, bem como nas livrarias Saraiva, Amazon, Submarino, Americanas e Cultura.

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