Dica de filme: La La Land - Cantando Estações

O cinema, assim como a literatura, tem o poder de nos transportar para outros mundos. Sua capacidade de transcender a alma por meio da beleza nos abre os olhos para os nossos próprios sonhos, para todas as possibilidades de vida que só a arte nos proporciona. Os musicais vão além disso, pois inserem música e dança numa cena em que aparentemente não cabia nada disso, o que eleva a sétima arte a outro patamar: a magia de várias artes unidas para nos causar sensações únicas.

Todas as críticas positivas a La La Land - Cantando Estações fazem jus a seu poder sobre nós. Damien Chazelle cumpriu o papel de homenagear os grandes musicais do cinema, numa encantadora declaração de amor ao jazz e ao cinema. Posso dizer que é um filme hipnotizante, que nos leva para dentro dele de fato. Não somos só espectadores diante de La La Land, somos os personagens também, apaixonados e sonhadores.


O filme nos conta a história de Mia (Emma Stone), uma atriz no início de carreira, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que deseja abrir uma casa de jazz para salvar o gênero musical. Sempre se esbarrando por aí, eles acabam se apaixonando e acompanhamos o romance através das mudanças de estação do ano. São dois personagens normais, com sonhos igual a todo mundo, o que é a graça do filme: somos como eles, podemos tanto quanto eles.


Apesar de não me surpreender tanto com a atuação da Emma e do Ryan, amei a química do casal, combinam muito desde "Amor a toda prova". Também acho incrível como o filme retrata os protagonistas como artistas "normais" e isso diz algo muito importante: não é preciso ter nenhum talento grandioso, tudo é possível mesmo com as nossas limitações.


O filme tem um jogo de cores que transmite pura beleza, a iluminação é única, tornando tudo mágico demais. As canções, então, não ficam para trás: Another Day of Sun, A Lovely Night e City of Stars são apaixonantes. As cores, a luz, a beleza, a melodia, tudo é encantador em La La Land. Eu não sou a melhor crítica de cinema do mundo (nem tenho pretensão de ser), mas posso afirmar que, para os apaixonados por Singin' in the rain (Cantando na chuva) como eu, o filme é uma bela homenagem aos musicais clássicos. Quem está cansado de tanto mais-do-mesmo, esta é uma experiência única. Fica o pedido: assistam a La La Land, deixem-se levar pela magia do cinema e sonhem, sonhem sempre.



Resenha: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

A literatura distópica é a queridinha dos blogueiros e booktubers, sem sombra de dúvidas, e comigo não é diferente. 1984 (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess) e o recente Sob Efeito do Nada (Andy Nowicki) fizeram parte das minhas leituras e ganharam meu coração, tornando-me uma grande fã de distopias. Diante disso, é de se estranhar que eu nunca tivesse lido Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, por isso fiz questão de lê-lo logo no início deste ano e posso dizer que tudo o que eu esperava era pouco diante da sua profundidade.

Imagine viver numa sociedade em que não existe família, religião e amor, os valores são completamente invertidos, o sexo e o consumismo são altamente estimulados e todo mundo é feliz, ou melhor, ninguém tem o direito de não ser feliz. É nessa sociedade que vivem os personagens do Admirável Mundo Novo. 

*Imagem retirada do We Heart It.

A história se passa numa Londres futurista, onde as pessoas não mais são frutos da união entre os pais, mas fabricadas em laboratório, para serem exatamente como o governo quer, de tal forma que milhares de pessoas são condicionadas para serem do mesmo jeito. Para isso, existem as Salas de Fecundação, de Predestinação Social e de Decantação, onde são criadas pessoas divididas nas castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Os alfas são feitos para serem os de "melhor qualidade" e os ípsilons são uma espécie de retardados. Apesar disso, todos têm boa aparência, nunca envelhecem e são sempre felizes. Caso surja alguma preocupação, as pessoas sempre podem recorrer ao Soma, uma droga sem efeitos colaterais que acalma a população e a deixa feliz e satisfeita. "Tais são as vantagens de uma educação verdadeiramente científica", é o que dizem os entusiastas deste modelo de sociedade - o que lembra bastante os entusiastas de todas as tiranias que afligiram e afligem o nosso mundo. 

De início, o livro nos apresenta a esse universo novo, depois a história se desenvolve com o surgimento dos personagens: Bernard Marx, um alfa que dizem ter um certo defeito de fábrica, por isso não tem a aparência e personalidade perfeitas dessa casta e não se adapta à nova civilização e, assim, busca autorização para passar as férias numa tal Reserva (Malpaís); Lenina, uma mulher perfeita para os padrões da sociedade e completamente satisfeita com tudo aquilo, que passa a relacionar-se (não amorosamente, claro) com Marx; e John, o Selvagem que eles trazem da Reserva para o mundo novo. As Reservas, tipo as reservas indígenas, são lugares isolados da civilização em que as pessoas ainda preservam os costumes e valores da sociedade pré-revolucionária, ou seja, as pessoas constroem relacionamentos e família, prestam cultos a Deus, lêem os grandes autores antigos, envelhecem, engordam, prezam pelas virtudes humanas... bem, são normais. Mas para o admirável mundo novo são incivilizados, um perigo à estabilidade social.

Quando o Selvagem chega à civilização, vira um espetáculo ao olhos da sociedade, é o foco de olhares admirados e ambiciosos para fazer dele um experimento moderno. Mas ele, apesar de encantado a princípio, enxerga a farsa daquela sociedade e denuncia isso, pregando palavras de liberdade e sensatez, sempre citando Shakespeare. O ponto máximo do livro, a chave para compreender aquela Civilização e todo o mal por trás dela, a meu ver, é o diálogo entre esse Selvagem e o Administrador Mustafá Mond. Nele, compreendemos por que o novo mundo tem pavor a tudo o que é antigo, seja o Cristianismo ou a grande arte. Foi preciso abrir mão de Deus, da arte e do conhecimento para alcançar a felicidade. Contudo, até que ponto a vida sem tempestades, amarguras e solidão é uma vida realmente feliz? Os dois confrontam-se: "- Mas eu gosto dos inconvenientes. - Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente. - Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado." John tem consciência do que importa de verdade na vida, por isso reivindica o próprio direito de ser infeliz.

Ironicamente, essa civilização surgiu com uma promessa de paraíso na Terra, trazida pela figura de Henry Ford (às vezes chamado de Freud, sim, Sigmund Freud), uma espécie de messias, o Transformador do Mundo. Suas ideais se implementaram na sociedade de tal maneira que o fordismo constituía a base da sociedade, sem questionamentos de parte alguma. Uma sociedade estável parece um sonho, não é verdade? Sim, para as mentes tolas, para quem não entendeu nada de como o mundo é, de como as pessoas são e do sentido da vida na Terra. Há quem diga que não há sentido, para esses, talvez um mundo totalitário, sem livre-arbítrio e estupidamente feliz seja a solução, mas não estamos aqui para sermos marionetes de um Estado opressor. Diz o Diretor no livro: "Esse é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer." É virtuoso e nos faz feliz fazermos o que devemos fazer, mas é o oposto disso ser condicionado a ser e agir conforme as ambições do governo.

Não sei se por eu ler esse livro paralelamente ao livro A Nova Era e a Revolução Cultural, mas foi inevitável não sentir a imensa crítica à Nova Era, a quaisquer ideologias que tragam soluções para todos os males da sociedade e uma ideia de um mundo novo e perfeito, planejado para adequar a sociedade a um sonho aparentemente utópico, no entanto, completamente distópico. No seu artigo Dois estudos sobre Aldous Huxley, Olavo de Carvalho diz: "Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas."

Assim como 1984, Admirável Mundo Novo sai da esfera de um exercício de futurismo para nos chamar a atenção para o potencial autoritário do própria realidade em que vivemos. Oceania não é um possível futuro da humanidade, mas foi daquela maneira que os regimes comunistas e nazifascistas martirizaram todo um povo no período em que Orwell escreveu o livro. Da mesma forma, Huxley alerta sobre uma sociedade tecnológica e industrial que transforma a racionalidade numa religião e a ciência num Deus, o que é um perigo atual e podemos ver isso claramente na hipersexualização, na produção de bebês in vitro, na doutrinação das crianças, da fuga às drogas para esquecer os problemas, tudo é parte da Nova Ordem Mundial, em que a liberdade de escolha foi suprimida em prol da ordem social perfeita. A lógica deste livro não inova para nos amedrontar, mas segue a própria lógica da História.

Todas as distopias têm algo em comum: uma sociedade manipulada, que não raciocina e só reproduz, sem liberdade e estável. A questão é que governo nenhum pode impedir os tempos difíceis, pois são neles que surgem os grandes homens, estes criam tempos bons e é um ciclo sem fim. A história da humanidade é essa, desde os séculos dos séculos, e tentar apagar isso é anular qualquer chance de surgirem bons homens, com honra e coragem, que proporcionem uma felicidade que existe apesar de todo sofrimento e aflição. Sem isso não há crescimento, não há amadurecimento, nem mesmo há humanidade.

Li o livro nesta edição de bolso da Globo. Você pode encontrá-la aqui.

Resenha: Um Cântico de Natal, de Charles Dickens

Comecei 2017 com um clássico que deveria ser lido no Natal, mas como eu sou a rainha da procrastinação, cá estamos nós. Esta obra já foi citada aqui, quando falei do filme "Barbie em A Canção de Natal", inspirado nela. Podemos ver referências suas também em vários outros desenhos e filmes da cultura popular, então certamente vocês já conhecem o enredo, pelo menos um pouquinho.

"Um Cântico de Natal", do inglês Charles Dickens, narra a história do avarento e impiedoso Ebenezer Scrooge, proprietário de uma casa de contabilidade, pela qual dedica sua vida. Ele é um péssimo empregador, mantendo seus empregados no frio para evitar gastos com aquecedor e sob péssimas condições de trabalho, como o seu escriturário, o pobre Bob Cratchit.

Na véspera de Natal, Scrooge é assombrado pelo fantasma do seu sócio e único amigo, Jacob Marley, que aparece com várias correntes e afirma estar reservado o mesmo destino ao amigo caso não mude de comportamento, pois são as correntes construídas em vida que o aprisionam no tormento do limbo. Para isso, três fantasmas (ou "espíritos natalinos") lhe aparecerão, para levá-lo à reflexão sobre a vida e o espírito de Natal, são eles: o Fantasma dos Natais Passados, o Fantasma do Natal Presente e o Fantasma do Natal Futuro.


O primeiro dos espíritos o leva aos seus natais passados, desde a infância solitária até a separação do antigo amor. Diante da infância sofrida, porém imaginativa, o velho Scrooge demonstra até certa inveja de quem foi, e diante do diálogo com a amada, que amolece o coração até do mais duro dos homens, ele se sentiu quase torturado. O segundo espírito mostra a Scrooge uma realidade que ele desprezava, mas não conhecia: uma ceia de Natal numa família pobre. Mesmo acreditando que a miséria poderia sacrificar pessoas em nome da redução populacional, ele se chocou com o amor compartilhado de uma família em necessidade e com uma criança doente, a do seu escriturário Bob. Também presenciou a ceia da sua família que, mesmo magoada com suas atitudes, ainda brindam a ele. O terceiro e último espírito, não preciso nem falar, é o que amedronta Scrooge ao conduzi-lo por um futuro miserável, sombrio, solitário e certamente seu. Todos esses espíritos constantemente usam das palavras insensíveis que ele sempre repete para limpar a sua consciência e apontar a crueldade delas diante das situações reais. São verdadeiros tapas na nossa cara também, pois somos um pouco de Scrooge quando lemos a história, não só por adentrarmos no personagem, mas porque ele representa a miséria humana da qual fazemos parte.

Antigamente, eu tinha a impressão de que a história tratava de maneira simples demais o ato de adotar uma nova postura, pois o protagonista estava diante de um iminente sofrimento e era óbvio tentar evitar aquilo, mas é um pensamento muito limitado, pois Scrooge começa a perceber a realidade a partir do primeiro momento e mesmo que não percebesse, que apenas a ideia de sofrer o amedrontasse, é assim que as coisas são. São nesses momentos de desespero e paixão que encontramos força para mudar, não só por nós mesmos, mas por todas aquelas pessoas as quais atingimos com a nossa falta de caridade. É no sofrimento que crescemos.

Com este belíssimo clássico da literatura inglesa, percebemos também que todas aquelas críticas ao capitalismo que atribuem a Dickens não são suficientes para a grandeza da sua obra. Todas as críticas sociais são partes do seu trabalho, com certeza, mas não o centro dele. Tais críticas, no máximo, transformariam Scrooge de um pão-duro ranzinza a um rabugento politiqueiro, mas os espíritos não pretendiam isso, queriam ir além de uma realidade política para uma realidade transcendental, que o levaria a uma vida nova de beleza, virtude e amor.

Certamente é um livro perfeito para o tempo de Natal, em que Jesus nasce e, com Ele, a esperança de vida eterna e plena, mas também diz muito sobre o Ano Novo. Que façamos deste ano uma chance de fazer diferente, de crescer e o que preciso for para salvar a nossa alma e a vida e alma do irmão.

Comprei essa edição bilíngue da Landmark na Saraiva, por um preço muito bom, quase de graça, rsrs. E ele ainda continua, corram!
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