Resenha: A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, de C. S. Lewis

O que C. S. Lewis chama de "esnobismo cronológico" é preocupante em relação às discussões, acadêmicas ou não, sobre tempos passados, sobretudo sobre o que chamamos de Idade Média, pois leva a impressões erradas sobre essa época tão subestimada quanto desconhecida. Diante disso, Clive Staples nos leva à realidade medieval de maneira profunda e surpreendente, com esclarecimentos e análises sobre uma mentalidade tão distante e, ao mesmo tempo, tão próxima de nós.

O último livro de Lewis, publicado postumamente, A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, é resultado das investigações do autor sobre essas questões. Não à toa, ele foi professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge; menos à toa ainda, ele trouxe ao mundo uma obra repleta de costumes medievais - as populares Crônicas de Nárnia. Para desfrutar das suas obras mais conhecidas, é recomendável e maravilhoso adentrar nos seus conhecimentos e influências sobre épocas e tradições anteriores. Antes de tudo, preciso ressaltar que C. S. Lewis é genial, considerado umas das mentes mais brilhantes e incrivelmente lógicas do século XX, pois isso aviso de antemão que sua leitura pode provocar arrepios a cada linha (pelo menos é o que acontece comigo). Agora vamos à obra!


No Capítulo 1, Lewis faz uma análise da situação medieval, partindo do estudo de duas obras: Brut, de Layamon, e Le Pèlerinage de l'Homme, de Deguileville. Ambas revelam uma mitologia enraizada na crença selvagem, que chegou aos medievais por meios dos livros, passando de geração em geração até manter um pouco de várias culturas. Isso releva um "caráter predominante livresco ou clerical da cultura medieval", o que a difere da comunidade selvagem, que absorve cultura pelo comportamento e/ou oralidade, e da nossa sociedade, cujo conhecimento depende mais da observação. A leitura era "o ingrediente mais importante da cultura total", apesar da rara alfabetização da época. Mas não só a tradição greco-romana, por meio dos livros, enraizou-se na Idade Média, a contribuição bárbara também, principalmente no que concerne à lei, aos costumes e à configuração geral da sociedade, bem como o pensamento, sentimento e imaginação pagãos sobreviveram nos únicos e insubstituíveis romances e baladas medievais. No entanto, estas, por estarem ausentes nas maiores obras da literatura medieval, como os hinos, Chaucer e Dante, mostram-nos que se tratam de coisas à margem da mente, justamente por não serem "o centro". Dessa forma, Lewis considera o homem medieval, em seu traço mais típico, não um sonhador ou um peregrino, mas "um organizador, um decodificador, um construtor de sistemas". Exemplos perfeitos disso são a Summa de São Tomás de Aquino e A Divina Comédia de Dante, além da própria síntese medieval, toda a organização de sua teologia, ciência e história, que constroem um modelo essencialmente livresco e sistemático. Esse contexto só foi possível porque os homens medievais acreditavam no que os autores antigos escreveram, com isso, herdaram uma coleção bem heterogênea de livros - judaicos, pagãos, platônicos, aristotélicos, estoicos, cristãos primitivos, patrísticos - e mesmo de gêneros literários. Diante disso, o autor nos leva a refletir sobre essa relutância em simplesmente desacreditar em algo de um livro, pois o ideal é harmonizar as aparentes contradições, da forma como os medievais faziam e, em consequência, aperfeiçoaram um Modelo perante o qual o homem moderno acredita estar livre e, no entanto, está reduzido como diante de uma obra de arte. O intuito de C. S. Lewis é convencer o leitor de que esse Modelo do Universo medieval "é a obra central, à qual a maioria das obras particulares estavam ligadas, à qual faziam referência constante e da qual colhiam grande parte de sua força" e à qual devemos muito mais do que gostaríamos de admitir.

Mr. Tumnus apresenta uma "Balada de Nárnia" para Lucy Pevensie em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa.

No capítulo 2, o autor faz algumas ressalvas quanto a esse Modelo medieval, de modo a concluir que ele é um construto de perguntas respondidas e, por isso, ele importa mais para a literatura e arte que para os especialistas da ciência, filosofia e teologia, na medida em que diz respeito ao universo imaginário dessa realidade. Assim, o Modelo é destruído quando o especialista responde às questões velhas. Até isso, todos os pensadores que, de certa forma, influenciaram na história do pensamento medieval são úteis para a construção desse Modelo, que se daria "a partir do acordo real, ou suposto, entre autores antigos - bons ou maus; filósofos ou poetas; compreendidos ou incompreendidos - que, por qualquer razão, estivessem acessíveis". E embora houvesse níveis de influência mais baixos disso na sociedade medieval, ainda é possível observar seus elementos nas caseiras e desprovidas de arte Lendas do Sul da Inglaterra, mesmo que alguns níveis intelectuais e espirituais estivessem acima do poder completo do Modelo.

Como esse Modelo é quase um consenso do imaginário medieval sobre livros e autores antigos, Lewis apresentou algumas dessas fontes nos capítulos 3 e 4, nos quais há materiais selecionados dos períodos clássico e seminal, principalmente os menos conhecidos e que melhor ilustram o curioso processo pelo qual o Modelo as assimilou. No período clássico (antiguidade pagã): 1) A obra de Cícero foi o protótipo de muitas ascensões aos céus na literatura posterior, em Chaucer, Dante e muito da produção medieval, e o caráter geral de seu texto é característico de muito material que a Idade Média herdou da Antiguidade. 2) Lucano gozava de grande respeito no medievo e cada detalhe de sua obra "cruzará o nosso caminho em um autor ou outro". 3) Estácio e Claudiano e sua senhora "Natura" tornam mais compreensível a estima dos medievais pela Natureza, e isso não os confunde com os estoicos e outros panteístas, pois "eles acreditaram desde o início que a Natureza não era tudo. Ela foi criada. Não era a maior criação de Deus, tampouco sua única obra. Ela tinha seu lugar próprio, abaixo da Lua (...) Havia coisas acima dela e coisas abaixo dela. É precisamente essa limitação e subordinação da Natureza que a deixa livre para seguir uma carreira poética triunfante. Ao abrir mão da pretensão estúpida de ser tudo, ela se torna alguém. Mas, para os medievais, ela é só uma personificação. Um ser figurado nesses termos é evidentemente mais poderoso que uma divindade em que eles realmente acreditassem e que, sendo tudo, não é precisamente nada." 4) Apuleius ilustra o tipo de canal pelo qual fragmentos de Platão chegaram à Idade Média - o que proporcionou, junto com os tradutores latinos dos neoplatônicos, o clima intelectual em que cresceu a nova cultura cristã, a exemplo de Santo Agostinho - e apresenta dois princípios: o Princípio da Tríade, pelo qual os medievais fornecem pontes entre duas coisas, e o Princípio da Plenitude, que traz a ideia de que todo o universo deve ser habitado ou, em outras palavras, aproveitado.

Já o período seminal foi um tempo de transição entre o último estágio do paganismo e o triunfo final da Igreja. Dele, Lewis destaca: 1) Calcídio, com sua consmologia, transmitiu ao Modelo medieval o espetáculo da dança celestial, a qual o homem se eleva ao imitá-la, e a ideia de que a matéria está em constante aperfeiçoamento, o que resultaria principalmente na poesia latina do séc. XII, em harmonia com a herança de Estácio e Claudiano. 2) Macróbio, nas suas ideias de nuances entre os sonhos e de virtudes cardeais, traz ao medievo concepções neoplatônicas em um ambiente eminentemente cristão. 3) Os escritos de PseuDionisio são considerados o principal canal pelo qual a chamada "teologia negativa" entrou na tradição do Ocidente, mas a sua contribuição para o Modelo está na angeologia e nas suas Hierarquias Celestiais - o que acabou por ser aceito pela Igreja. Esse espírito está bem presente no Modelo medieval e, mesmo que descrente o leitor, Lewis acredita que basta exercitar a imaginação para perceber o amplo reajuste envolvido na leitura atenta dos poetas antigos e que "no pensamento moderno, isto é, no pensamento evolucionário, o homem está no topo de uma escada cuja base se perde na escuridão; nesse Modelo, ele está na base de uma escada cujo topo é invisível por causa da luz ofuscante." [Impossível ler isso e não lembrar da Trilogia Cósmica de C. S. Lewis, então penso: refletiria o Modelo até mesmo na sua obra, em pleno século XX?] 4) E, por último, Boécio, sobre o qual Lewis escreveu: "Aprender a apreciá-lo é quase 'naturalizar-se' medieval", pois sua apologia da Fortuna, defesa da Felicidade e doutrina da Providência&Destino se imprimiram na imaginação das posteriores eras, como no Modelo medieval, de maneira inigualável, especialmente no que conhecemos por doutrina do livre-arbítrio.

No capítulo 5, temos uma análise do pensamento científico medieval, que em muito (totalmente) difere do que o senso comum propaga com tanta presunção. Aqui, o foco é a astrologia, absorvida da Antiguidade e aperfeiçoada para a Renascença, ainda que a Idade Média tenha lutado contra o lucro em cima dela, o determinismo e o culto aos planetas, o que muitas vezes ocorre quando se trata desse assunto. Lewis conclui: "A imaginação humana raras vezes teve diante de si um objeto tão sublimemente ordenado quanto o cosmos medieval. Se ele tem uma falha estética, quem sabe isso seja pelo fato de que para nós, que viemos a conhecer o romantismo, ele seja um pouco ordenado demais. Por todos os seus espaços vastos, ele pode no final infligir-nos certa claustrofobia. Será que não há nenhuma incerteza em lugar algum? Nenhum atalho não descoberto? Nenhum crepúsculo? Será que nunca poderemos sair da soleira da porta?" E, em seguida, ele traz alívio a essas questões, levando-nos ao Reino desconhecido das Fadas.

The Faerie Queene de Edmund Spenser (imagem retirada do Pinterest).

Lewis dedicou o capítulo 6 aos Longaevi, ou seres de vidas longevas, mais especificamente aqueles seres fantásticos que tanto permeiam o universo criativo de Nárnia, que podemos chamar de fadas. A importância desses seres para o Modelo é justamente o fato de serem tão presentes nele quanto marginais, eis onde reside seu valor imaginativo: "Eles amenizam a severidade clássica do imenso design. Eles introduzem um quê selvagem e de incerteza bem-vindo em um Universo que está correndo o perigo de ser um pouco autoexplicativo e luminoso demais". As fadas trazem o mistério do desconhecido à tona e livram-nos da claustrofobia apontada por Lewis anteriormente. Com isso, é apresentado um estudo acerca da visão literária sobre essas criaturas, nos autores modernos e medievais, a partir da visão destes sobre aqueles e suas influências e nuances com base no Modelo Medieval. Por não saber exatamente onde as fadas se encaixavam nesse Modelo, nem mesmo quanto e quão conscientemente acreditavam nelas, elas tinham credibilidade suficiente para produzir teorias antagônicas sobre sua natureza, dentre as quais: de que são uma terceira espécie racional, anjos, mortas ou parte de alguma classe especial de mortos ou anjos decaídos. Poderíamos esperar que a ciência se importasse com essas Fadas Superiores; porém, Lewis acredita que elas tenham desaparecido pela redução da superstição. São seres completamente vivos no imaginário medieval (e posterior), mas, onde quer que eles tenham existido, continuam incógnitos.

No capítulo seguinte, inclusive o mais extenso do livro, vários temas relacionados à Terra e seus habitantes são trabalhados, a começar pelo conhecimento geográfico na Idade Média. Apesar de inegavelmente limitado, ele era menos ingênuo e muito mais prático do que a modernidade costuma lhe classificar, em relação à gravidade, à forma da Terra e aos continentes - ao mesmo tempo em que é muito romântico. Sobre a zoologia medieval, o que temos é mais uma pseudozoologia, bem fantasiosa e que envolve criaturas como fênix, pelicanos e unicórnios, mas extremamente importante para poder ler os poetas ou fazer um debate esclarecido sobre eles. Ele também dedicou uma parte deste capítulo à alma humana sob a ótica medieval e, por incrível que pareça, o sentido da razão, ponto máximo da alma humana, estreitou-se bem mais com o passar dos anos em relação à Idade Média. Também as relações "corpo e alma" e "corpo e emoção (no sentido d'esta refletindo naquele)" esteve em debate nesse período, bem como o estudo do "passado humano", que, pela humildade e dedicação, daria uma aula de processo histórico aos historicistas radicais. Lewis diz: "Historicamente, bem como cosmologicamente, o homem medieval se encontrava ao pé da escada; ao olhar para cima, ele sentia prazer. Olhava para trás como para a frente, com todo o espetáculo majestoso que isso reservava, e sua humildade era recompensada com os prazeres da admiração." Além disso e por fim, ele analisa a pedagogia medieval, nas conhecidas e insuperáveis sete artes liberais. São elas: Gramática, Dialética, Retórica (Trivium), Música, Aritmética, Geometria e Astronomia (Quadrivium).

Lewis chega ao fim do livro falando sobre a influência do Modelo, na imaginação perceptiva dos medievais, na Retórica, no prazer pelo Universo (o que difere do "amor pela natureza" no sentido de Wordsworth), na reprodução de autores passados e, sobretudo, na humildade da arte, mesmo que os artistas sejam orgulhosos de sua proficiência. Essa humildade difere em muito o homem medieval dos posteriores, principalmente hoje, em que "só o que fazemos é pensar que pensamos. Depois de ter tragado tudo, ele (o sujeito) devora a si mesmo. E 'para onde nós vamos' surge como uma questão mergulhada nas trevas." No Epílogo, encontramos um quase Elogio do Modelo Medieval e algumas diferenças entre ele e nosso próprio, com explicações que mostram a importância de compreender o pensamento/Modelo de um período muito mais que demonizá-lo ou endeusá-lo, o que acontece atualmente em relação à Idade Média e à modernidade, respectivamente.

Os detalhes sobre todos os autores citados no livro e sua importância na formação do Modelo de Universo medieval ficam para Lewis explicar, com a eloquência e a genialidade que só ele tem, mas o importante para o post é apenas a visão geral. E que fique claro que Lewis traz uma análise do pensamento medieval à luz da literatura, então, mesmo que abordados temas diversos, é tudo sobre literatura.

Por fim, eu deixo um apelo: que olhemos para a Idade Média tal como os medievais olhavam para a história; para eles, "havia amigos, ancestrais, benfeitores em todas as épocas. Cada um tinha o seu lugar, por mais modesto, em uma grande sucessão; não era preciso ser nem arrogante nem solidário".

Clive Staples Lewis.




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