3 lições da série Descendants of the Sun

Não é preciso ser um grande admirador da cultura sul-coreana para reconhecer a qualidade do que ela produz, por isso suas séries/novelas (doramas), por exemplo, agradam o mundo inteiro. Eu, particularmente, relutei a dar uma chance devido ao trauma que uma novela japonesa (um episódio) me causou. Mas depois de me render à música coreana, não resisti a assistir às novelas, depois das avaliações positivas de uma amiga, mais especificamente sobre uma: Descendants of the Sun (tem na Netflix).

Como eu não conheço direito nada disso, não criei muita expectativa nem tenho comparações a fazer com outros doramas. Mas o enrendo, ambiente, diálogos, personagens, fotografia e trilha sonora me surpreenderam demais, tanto que ainda não consegui assistir a mais nada com medo de que não chegasse aos pés. Assim sendo, preciso compartilhar aqui os pontos que mais me encantaram no drama.

O enrendo de Descendants of the Sun é o romance entre o capitão das forças especiais Yoo Shi-Jin e a médica-cirurgiã Kang Mo-yeon que, devido aos empregos difíceis, acabam por se separar, até que a vida os une novamente, quando Mo-yeon é nomeada para liderar um trabalho voluntário em Urk, onde Shi-jin está com seus soldados.

A maior parte da série não se passa na Coreia do Sul, mas nesse pequeno país fictício (Urk), onde os personagens se deparam com pobreza, terremotos, epidemias e sofrimento. Isso é até normal para os soldados coreanos, mas uma realidade nova para os médicos voluntários. Apesar de achar que este último tema poderia ter sido mais explorado, gostei dos resultados desse contexto para a trama e até mesmo para o romance, pois trouxe um toque de ação para a série melodramática e de dificuldade para o romance entre os personagens principais. Além disso, a fotografia da série é sensacional, proporcionando imagens de tirar o fôlego, e, como eu vivo dizendo: a beleza transcende a alma. A seguir, algumas imagens:





A trilha sonora também é linda e contribuiu muito para que a série se tornasse um hit. Além de emocionantes, as músicas se encaixaram bem nas suas respectivas cenas, o que é uma forma também de tocar o público. As minhas favoritas são: 
Always - Yoon Mi Rae; 
Talk Love - K.Will; 
You are my everything - Gummy; 
Once Again - Mad Clown;
&
Everytime - Chen feat. Punch.

Dado isso, ficam as principais lições que pude tirar da série:

1. Lealdade, honra e coragem: lema para o Exército e para a vida
Os valores e princípios dos soldados são inspiradores. Descendants of the Sun retrata o código moral deles muito bem, mostrando como o companheirismo é responsável pelo sucesso nas missões e também suporte para os desafios que a carreira militar traz. Dá para perceber também que essas virtudes que a carreira pede, "lealdade, coragem e honra", atingem os soldados em todos os aspectos de sua vida, tornando-os não somente bons profissionais, mas boas pessoas. O melhor amigo do protagonista e sargento do Exército, Seo Dae-young, é o maior exemplo disso; ele não só foi leal ao capitão Shi-Jin até o último momento, como mudou a vida de Kim Ki-bum, que havia roubado o seu celular, ao dar outra chance a ele, o que o transformou em um militar também, inclusive um dos mais corajosos e honrados da série. É claro que o coração bondoso de Dae-young foi o ensejador de ato tão nobre, mas tenho certeza de que seus anos como soldado deram asas a todos os sentimentos bons que ele possuía dentro de si.

E o que falar do Big Boss (capitão Shi-Jin)? Falam que o jeito menino e sexy do ator Song Joong-Ki, claramente visível no Big Boss, foi o responsável por um personagem tão carismático; mas muito mais que pela graça, beleza e mistério do ator/personagem, Shi-Jin destacou-se por suas características singulares: coragem, inteligência e prontidão constante para se sacrificar por quem precisa. Com uma passagem de Tolstói, em Guerra e paz, podemos resumir esse personagem: "Experimentava agora o sentimento agradável da consciência de que tudo aquilo que constitui a felicidade das pessoas, os prazeres da vida, a riqueza e até a própria vida, são tolices que dá gosto descartar, em comparação com outra coisa... Com o quê, isso ele não conseguia responder, nem tentava esclarecer pelo que desejava se sacrificar, mas o próprio sacrifício em si constituía, para ele, um sentimento novo de alegria."

Tudo isso são virtudes que valem para a vida toda, em relação a todos, e a série mostra como a convivência com essas ações virtuosas interferem na visão de mundo dos médicos voluntários. Estes não estavam lá por vontade própria, embora fosse um trabalho voluntário, foram obrigados a ir pelo hospital onde trabalham; mas ao chegarem lá e se depararem com uma realidade tão sofrida, bem como com pessoas capazes de dar a própria vida para mudarem essa realidade (os soldados), eles viraram médicos e pessoas melhores, mais dispostos a ajudar o outro. Um exemplo disso é a protagonista, Mo-yeon, que, apesar de se preocupar demais em ganhar e ter dinheiro, venceu sua avareza para mudar a vida de Fatima, uma jovem que estava quase entrege à prostituição, mas que teve oportunidade de virar médica e ter uma vida melhor graças à ação de Mo-yeon. E fica claro na série a influência do capitão Shi-Jin sobre as mudanças dela, não somente por causa do amor deles, mas por encarar que, sim, seu exemplo deve ser seguido. E ela segue tão bem que realiza algo que ninguém na série inteira foi capaz de fazer, além de Dae-young: transformar radicalmente a vida de alguém.

Enfim, a moral é que: se quisermos ter sucesso na profissão, nos relacionamentos e como pessoa, o código moral de "honra, lealdade e coragem" é essencial. Não precisamos nascer assim, a virtude se adquire, mas o primeiro passo para nos tornarmos quem queremos ser é assumir quem somos. Se falta algo, tomemos o bom exemplo ao redor e mudemos.



2. Filosofias diferentes podem formar um bom romance (mas alguém tem que ceder um pouco mais)
O casal principal é muito bem construído, não tem dificuldades forçadas demais para atrapalharem o romance (como diferença de classe ou pais pressionando), o maior problema são eles mesmos. Shi-jin, como capitão das forças especiais, coloca a segurança da sua nação e das pessoas acima da própria vida, enquanto Mo-yeon, como médica, entende que a vida de todos é sagrada e não é certo tirar uma vida para proteger outra. São filosofias distintas (não contrárias). Além disso, ela não sabia se seria capaz de aguentar uma vida com um soldado, que passa meses sem dar sinal de vida e pode, a qualquer tempo, nunca mais voltar de uma missão, ainda mais ele, que nunca hesitaria em dar a vida para salvar alguém. Foram esses pensamentos o que mais atrapalhou o casal.

Diferente da maioria das pessoas, não critico Mo-yeon por ter relutado tanto a namorar Shi-jin, por motivos de: ela é adulta, quer um relacionamento sério e duradouro e jamais entraria num romance somente pela atração física que sentia. Por isso ela resistiu tanto, pois precisou pensar muito bem se estaria disposta a enfrentar um relacionamento assim. Mas o que certamente a fez amolecer foi a vivência naquela realidade das missões militares, onde a morte é ainda mais real que nos hospitais, onde os riscos são constantes, onde existe a regra do "matar ou morrer". Já pensou se Shi-Jin não seguisse sua filosofia ali? Provavelmente ela não estaria vida, pois foi ele quem a protegeu, e as crianças da vila fantasma estariam perdidas no sofrimento ou mortas, pois a vida de Argus, um criminoso, era um risco para segurança delas, tão inocentes.

Diante disso, um foi convivendo com a realidade do outro, de modo a perceber que nenhum estava errado, apenas presenciavam situações distintas, que requeriam decisões diferentes. A diferença entre eles não era moral, mas circunstancial. Assim sendo, o tão esperado romance deu certo, porque um entendeu o outro; no entanto, foi a médica Mo-yeon quem mais cedeu, pois o emprego dele era algo tão assustador para ela, que foi preciso um reexame reiterado de consciência para fazê-la perceber que, por mais medo que sentisse, o que Shi-Jin fazia era necessário e ela não poderia privá-lo de fazer o certo, mesmo que isso significasse sua morte. No fim das contas, quando os corações entendem um ao outro, dá-se um jeito de ficar unidos. A realidade pode ser diferente, mas os princípios, abnegações e amor é que os une.




3. Não se deve desistir de quem ama
Por mais clichê que essa lição pareça ser, ela é brilhantemente protagonizada pela tenente Yoon Myung-joo, na busca pelo seu amado Dae-young. Nessa série, o casal secundário conseguiu me arrancar mais lágrimas do que o principal. Eles tiveram um namoro por um tempo, mas o pai de Myung-joo não aceitava que a filha se relacionasse com um apenas sargento, então, como chefe dele, o proibiu de continuar. Dae-young percebeu que o comandante sinceramente acreditava que ela merecia mais, então ele passou a achar que não era digno dela. Myung-joo, no entanto, nunca desistiu, e dedicou um longo tempo a procurá-lo, persegui-lo e estar perto dele. Para ela, não importava que a profissão dele fosse difícil, que estivesse hierarquicamente inferior a ela ou mesmo a ignorasse, pois enquanto ele estivesse perto, tudo estaria bem.

O que me chamou a atenção foi que ela praticamente venceu pelo cansaço, tanto do sargento quanto do pai. Não era questionável o amor de Dae-young por ela ou a sinceridade com que o pai proibia o romance, o sentimento deles era verdadeiro, mas a perseverança de Myung-joo foi a chave para a sua felicidade. Se ela não fosse tão insistente, ao ponto de às vezes ser chata, seu pai e seu amor jamais teriam visto que o certo mesmo era a união deles, pois o amor existia e o que impedia não era (motivo) o suficiente para sufocá-lo.

Também não critico Dae-young. Se ele tivesse passado por cima do comandante Yoon, talvez fosse o fim do romance. Ele foi obediente e sábio, pois estava numa posição em que cabia a ele agir assim, não seria certo contrariar. Myung-joo não, estava nas suas mãos bater de frente com o pai, com Dae-young e com quem fosse preciso. É como dizem: as coisas são como devem ser; mas sem a insistência da tenente, o lindo romance deles não seria possível - e faltariam muitas lágrimas e risadas para a série. Por fim, jamais esqueçamos: quando certo e verdadeiro, a nossa função é jamais desistir.



Descendants of the Sun ficou no meu coração, pois tem tudo que gosto: romance, ação, emoção, clima descontraído. É engraçado e emocionante! Mas deixei o melhor para o final: Song Joong-ki (Shi-jin). Esse ator é lindo e talentoso demais, não é à toa que é o queridinho da Coreia. Fica o registro para apreciação:


"Como se dá a alguém um pedaço do Céu?"

Além das nuvens brancas e azul celeste, o desejo humano pelo que está no Alto ultrapassa a limitada matéria. Quando se questiona como dar ou ter um pedaço do céu, a resposta vai além da nossa razão, pois pedimos o céu, mas queremos o que ele representa - a eternidade, a plenitude, o Paraíso.

A questão real é "como dar a alguém um pedaço da eternidade?" É certo que existem inúmeras formas de trazer e levar experiências de eternidade a alguém, mas de forma tangível, conheço poucas. Dentre as quais, a mais eficaz, mais simples e mais prazerosa: livros. Quando falava sobre o pequeno-grande livro "Elogio da Leitura", me referi à literatura como esse modo de ir além da realidade e de si mesmo, modo esse que acalenta a nossa alma e afaga os nossos sonhos. 

Ao se dedicarem a me presentear com algo material, esses pontos são sempre bem interpretados pelos que me são caros: eles me brindam com um pedaço da eternidade. Esse ano não foi diferente, talvez tenha sido a minha melhor experiência de como receber um pedaço do céu.

Esses foram os frutos do meu aniversário e, neste post, falarei um pouco sobre cada um deles. A começar: 

Anna Kariênina - Liev Tolstói (Cosac Naify):
Eu sou apaixonada por livros bonitos. Apesar de saber que o conteúdo é o mais importante, tenho consciência de que a beleza atinge o objetivo de transcender a alma tanto quanto a mensagem do livro, e Anna Kariênina alcança isso de maneira esplendorosa, em todos os sentidos. Eu venho namorando essa chef-d'ceuvre (obra-prima) há tempos, mas as edições de luxo da Cosac pesam muito no bolso, então nunca comprei, e agora tive a alegria de ganhá-la. Além de lindíssima, as edições da Cosac têm ótimas traduções, o que aumenta mais ainda o prazer de ler um clássico da literatura. Tolstói é um gênio, uma mistura de sacro e profano, cristianismo e comunismo. Confuso, talvez, mas genial. E neste grande romance, ele ambientaliza o caso extra-conjugal (traição mesmo, não tem por que eufemismos) entre Anna e um oficial com as reformas liberais de Alexandre II, o industrialismo e o surgimento de uma nova elite, o que leva ao debate de muitos temas como família, desejo, fidelidade, hipocrisia etc. Enfim, bem flaubertiano, embora o estilo de Tolstói seja único a ponto de dispensar quaisquer comparações.


Antologia da Literatura Fantástica - Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo (Cosac Naify):
Mais uma beleza da Cosac e uma obra-prima para os amantes de literatura (principalmente fantástica) como eu. Antologia é uma coleção de trabalhos literários, então já podem deduzir o valor de uma reunião de grandes mestres da literatura fantástica por outros também grandes, como Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo. Essa antologia abrange contos de diversos autores, de diferentes lugares e períodos, alguns conhecidíssimos, outros não. É muito bom para quem quer mergulhar a fundo nesse gênero literário e ainda terminar a leitura com um lista de bons nomes e títulos para futuras leituras.


Ortodoxia - G. K. Chesterton (Ecclesiae):
Eu conheço Chesterton dos inúmeros textos que meus amigos e páginas inteligentes do facebook compartilham, e já o amo pelo pouco que li. O que é muito estranho, pois me sinto de certa forma íntima da sua escrita, mesmo sem nunca tê-lo lido, isso levanta uma questão mais estranha ainda: por que, ó raios, nunca comprei um livro de Chesterton?! E antes mesmo da resposta, uma amiga resolve me presentear com esse autor inédito para a minha estante. Ortodoxia é, sem dúvida, uma de suas obras mais conhecidas, e também uma autobiografia da sua trajetória espiritual, além de uma apologia do cristianismo contra as filosofias e doutrinas do início do século XX. Chesterton tem humor, eloquência, inteligência, arte argumentativa, qualidades estas reunidas neste livro, que resgata o núcleo da fé cristã numa sociedade que se encaminhava para sua "superação" - a Europa do séc. XX.


Donnie Darko - Richard Kelly (Darkside):
Isto é algo inédito para mim: um filme que virou livro. Donnie Darko, o clássico filme cult, pode chegar a nós também pelo mágico mundo da leitura. E não, não se trata de uma adaptação do longa-metragem, mas o roteiro original do filme na íntegra, além de um prefácio escrito pelo Jake Gyllenhaal (ator que faz o Donnie, no filme), entrevista com o diretor Kelly, o livro tão citado no filme - "Filosofia da Viagem no Tempo", lista da trilha sonora magnífica do longa, tudo isso recheado de fotinhos do filme e coberto por uma bela capa dura com a imagem do nosso amado coelho Frank. Com isso, para os fãs da história como eu, fica muito mais fácil (ou menos impossível) compreendê-la e até criar as próprias teorias. Para quem não conhece o filme, é uma mistura de ficção científica, suspense, drama e o universo adolescente da década de 80, e conta a história de um garoto problemático que se vê obrigado a seguir ordens de um coelho monstro pois ele o salva da morte e tem a data e hora certa de quando o mundo vai acabar. Cada frase e cena da história é controversa, até mesmo a trilha sonora está diretamente ligada a ela. Então esse livro é muito bom mesmo para quem quer se aprofundar no universo paralelo de Donnie Darko. Eu também tenho minhas teorias, nada muito maduro ainda, mas um dia me arriscarei a tentar desvendar a história, sob a minha ótica, aqui.


Além do Planeta Silencioso - C. S. Lewis (Martins Fontes):
Meu escritor preferido é Lewis, sua mente brilhante me conquistou com As Crônicas de Nárnia, quando mais jovem, e desde então vem me prendendo com sua lógica e escrita impecáveis. Além dos famosos contos de fadas narnianos, C. S. Lewis se destacou na apologética cristã, crítica literária, literatura medieval e ficção científica, gênero este do qual faz parte o livro em questão. Além do Planeta Silencioso é o primeiro livro da famosa Trilogia Cósmica, e conta a história do filólogo Elwin Ransom e seus combates, descobertas e aventuras no planeta Malacandra. Neste livro, Lewis também explora a linguagem, filosofia e religião, com uma maestria que levou a trilogia a ser comparada, no século passado, apenas à trilogia tolkieniana de O Senhor dos Anéis. Ainda não terminei esse leitura, mas não sei se serei capaz de fazer uma resenha sobre, simplesmente porque não vale a pena ler sobre este livro, é preciso ler o livro - já, o quanto antes, agora, imediatamente (me pergunto porque só agora estou lendo).


Então, não resta dúvidas de que eu realmente ganhei pedaços preciosos do céu e espero que, nessas poucas palavras, tenha surgido o interesse de ler esses clássicos. Ainda estou no meio caminho, mas espero escrever mais e melhor sobre alguns deles aqui no blog depois.
Tecnologia do Blogger.