A formação clássica da criança na série de filmes Barbie

A criança que fui sempre preferiu brincadeiras caseiras e silenciosas à agitação escandalosa de épocas primaveris. Se isso é bom ou ruim, não sei, mas por esse motivo a minha infância foi repleta de tentativas artísticas: desenhei, dancei, escrevi poesias e desenvolvi até uma novela (sobre mutantes, mas tudo bem). Tudo isso se perdeu aos pouquinhos quando tive que ter como foco o Enem e a universidade. Creio que a fuga das minhas tradições "refinadas", no entanto, se deu pelas consequências disso: eu não tinha mais tempo para apreciar os contos de fadas (embora o gosto nunca tenha se perdido). Enfim, a questão é que as histórias infantis foram a melhor influência do mundo para mim e certamente amplia os horizontes, a facilidade de aprender e compreender, além dos sonhos e aptidões de qualquer criança.

A dificuldade está no acesso das crianças a conteúdos infantis de qualidade, ainda mais se forem clássicos. Muitas vezes, o único contato que temos com isso na infância é por meio dos filmes e desenhos populares, mesmo. Contudo, a maioria deles, pelo menos atualmente, confunde a mente da criança com mensagens politicamente corretas e lições de moral baratas, e o incentivo à virtude é quase nulo. Mas para não desanimarmos, existe até mesmo modismos infantis que servem como uma verdadeira ponte para a literatura, dança e música clássicas. Obviamente, não nego que tem conteúdo de grande valor acessível a crianças, mesmo sofisticados em sua linguagem e tradição; a questão, porém, é que o primeiro contato que se tem com boa arte é por meio de filmes e desenhos mais conhecidos. É aqui onde recebo muitas risadas, mesmo assim ouso dizer: um dos melhores exemplos disso é a série de filmes da Barbie. Não há de se negar o meu gosto por contos de fadas, é algo quase que estampando na minha testa, por isso acredito saber identificar o que é bom, nesse sentido, para as crianças. Isso é fruto da minha experiência no universo infantil e dos impactos dela sobre mim. Sem sombra de dúvidas, o exemplo da Barbie é perfeito para ser a ponte entre o mundo moderno e clássico, como mostrarei mais na frente.

Em contrapartida, a paixão por contos de fadas vem acompanhada de muitos comentários inconvenientes - e ignorantes! - acerca da nossa capacidade de se ater à realidade. Digo isso porque sempre, ainda hoje, ouço muitas risadas por falar tão bem e com tanto carinho da série cinematográfica. Outra coisa também me tocou negativamente: há alguns anos, fui questionada em relação ao meu gosto pela Barbie por ela, supostamente, ser o símbolo da futilidade e da alienação capitalista. Acredito que a pessoa se referia à bonequinha Barbie, pela qual realmente não me interesso nem um pouco (por agora, claro rs), mas isso me fez pensar no quanto as pessoas são tão limitadas quando o assunto é o imaginário.

Muito mais do que futilidade, esse universo "disneyático" trouxe a magia, a virtude e o clássico de uma maneira divertida e singela, por meio da bonequinha mais famosa do mundo. Quando digo isso, estou ignorando toda a produção dos filmes pós-2008, que, a meu ver, fugiu completamente dos roteiros anteriores e tentou, sem êxito, aliar a vida tecnológica/moderna ao mundo fictício e gerar algo produtivo disso. Obviamente, o que as crianças precisam, quando recorrem à ficção, é de algo diferente do que já têm, algo melhor, aí porque esse esforço em fazer uma mistura maluca da realidade e fantasia é inútil. Tá bom, não vou exagerar, depois da minha desilusão com os filmes entre 2008 e 2012, deixei de acompanhar, então não tenho muito o que falar depois disso, dada a minha falta de conhecimento (mas não espero muita coisa, viu?).

Então, resta agora apontar onde exatamente a Barbie serve como elo para a formação clássica da criança, a começar pelo primeiro filme da série cinematográfica animado por computador: Barbie em O Quebra-Nozes. Esse nome já é autoexplicativo para bons entendendores, restando apenas a dúvida: o livro Quebra-Nozes ou o balé Quebra-Nozes? Pois bem, o roteiro foi inspirado nos dois, na obra de Hoffmann, O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (1816), e no balé de Tchaikovsky, O Quebra-Nozes (1891). Com isso, não resta dúvida de que o longa é recheado de boas referências e, sobretudo, boa música. É pedir demais que crianças apreciem música clássica e coisas afins por conta própria, mas isso pode alcançá-las em animações infantis, tocar suas almas e talvez despertar um gosto mais refinado no futuro. Além disso, o filme fala de gentileza, coragem e beleza interior, e é repleto de romance e fantasia, tornando-se inesquecível para todos os fãs da Barbie, os amantes de balé e música clássica e certamente uma ótima referência para as crianças.


Em seguida, temos o longa Barbie como Rapunzel, inspirado na famosa história dos Irmãos Grimm, Rapunzel (1812). Fora os efeitos para o imaginário que os contos de fadas naturalmente trazem, esse filme tem um toque especial de incetivo à pintura ao mostrar, nele próprio e não somente por meio dele, que às vezes só precisamos de uma boa inspiração para desenvolvermos nosso talento, e a história de Rapunzel serve como essa inspiração para a jovem Kelly, no filme.


A sequência, Barbie: Lago dos Cisnes, é uma inspiração do famoso balé O Lago dos Cisnes (1877), também de Tchaikovsky. Ele conta a história da jovem Odette, destinada a salvar os seres de uma floresta mágica da maldição de um poderoso feiticeiro, mesmo também amaldiçoada a transformar-se em cisne. A salvação foi possível graças ao poder mágico que o verdadeiro amor dela pelo príncipe Daniel trouxe, mediante o seu sacrifício por ele. E tão lindo quanto a história de sacrifício, amor e magia é a coreografia do filme, que mostra muito do balé apresentado nos teatros. Ao som de Tchaikovsky, impossível tudo isso não transcender a alma de uma criança.


Agora, como referência à literatura clássica, temos Barbie em A Princesa e a Plebéia, inspirado na obra-prima de Mark Twain (considerado "o pai da literatura americana"), O Príncipe e o Mendigo (1881). O filme ficou conhecido como o primeiro musical da série cinematográfica. E a sua história nos mostra a importância de fazermos o nosso dever, mesmo nos sentindo, de certa forma, presos, interior ou exteriormente, pois a felicidade não vem com a rebeldia contra os nossos papéis enquanto princesas ou plebéias, mas com a consciência de que somos quem somos. É importante que as crianças entendam isso, para que não se enganem com falsas ideias de liberdade. Enfim, é uma linda história de amor e amizade, recheada de diversão e música.


Se a intenção for apresentar a dança e a literatura de uma só vez à criança, a minha indicação é Barbie em As Doze Princesas Bailarinas. Ele não só apresenta lindos passos de balé, como é baseado no clássico conto de fadas As Doze Princesas Bailarinas (1812), dos Irmãos Grimm. Apesar disso, o filme é bem mais leve que o conto e seu final, mais feliz. Nele, as princesas têm a oportunidade de viverem em um mundo mágico onde todos os seus desejos tornavam-se realidade, mesmo assim, a responsabilidade e a sensatez as chamam de volta. Com dificuldade, conseguem voltar para casa, recuperar seu reino e salvar seu pai, graças ao amor da princesa Genevieve e do sapateiro real Derek e ao poder de sua dança juntos. Nada como uma mágica aventura para alertar as crianças de que os seus sonhos e desejos são importantes e necessários, mas nunca superiores ao amor incondicional que só a realidade nos proporciona.


Encerrando a minha lista de filmes da Barbie inspirados em grandes clássicos na literatura, música e balé, Barbie em A Canção de Natal possui a chave de ouro. Esse é um dos filmes mais inspiradores da série inteira e foi baseado num clássico de ninguém mais, ninguém menos que... Charles Dickens! E o nome da obra dele é também A Canção de Natal. Não é de se esperar que crianças leiam os grandes romancistas ingleses da era vitoriana,  ainda mais o maior deles, mas elas podem alcançar uma adaptação tão perfeita e simples como essa animação cinematográfica. Não é exagero, o longa-metragem ficou extremamente fiel ao livro, em sua essência: pessoas orgulhosas que odeiam o espírito de Natal, mas mudam radicalmente quando se veem diante de um futuro triste e solitário. Por motivos até bobos, desde jovens, ignoramos a máxima de que "é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou" e passamos a rejeitar momentos de alegria e união como o Natal por alguma má experiência do passado. O filme traz à tona a importância do Natal de Jesus e, sobretudo, a necessidade de sairmos - não só no Natal, mas pelo resto da vida - do estado de avareza e impiedade em que nos encontramos. Assim como Eden Starling, devemos aprender o valor da gentileza e da caridade, de preferência mais cedo que ela. E para completar, o filme está repleto de músicas líricas natalinas, é de tocar o coração.

*Todas as imagens deste post foram retiradas do We Heart It.

Embora eu tenha me apegado mais aos filmes inspirados em histórias clássicas, a série animada eternizou alguns outros também como clássicos da fantasia. Impossível deixar de fora os legítimos contos de fadas da franquia Barbie Fairytopia (Fairytopia, Mermaidia, A Magia do Arco-íris e Butterfly), que, de tanto sucesso, ganhou uma versão no teatro; a dança e magia no filme Barbie em A Magia de Aladus; os lindos musicais de Barbie em A Princesa da Ilha e Barbie e o Castelo de Diamantes (este, meu preferido de todos eles). Até mesmo a versão adolescente da Barbie em O Diário da Barbie deu muito certo, ainda mais com o toque musical.

Como eu disse, meu gosto pela produção dos filmes vai até o ano de 2008. Se existir algo tão bom quanto o que citei aqui depois disso, preciso dessa informação, por favor. No mais, não privem as crianças de terem contato com o universo da Barbie com discursos anticapitalistas e pseudocults, pois elas têm muito o que aprender sobre fantasia, virtude e arte com ele.
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