Resenha: Todos os caminhos levam a Roma, de Scott e Kimberly Hahn

Minha última leitura já faz uma semana e dois dias que foi concluída, a demora para escrever algo a respeito foi culpa das provas. O que é um pouco desestimulante, pois muita coisa se perde quando não fica registrada de imediato, mas acho que consigo transmitir a essência aqui.

Este maravilhoso testemunho de conversão do casal Scott e Kimberly Hahn é uma leitura essencial para todo cristão, com controvérsias em relação ao catolicismo ou não, pois esclarece questões pertinentes como a Sola Scriptura, a Sola Fide e a devoção à Maria. O mais incrível é que a história é desenvolvida de uma maneira muito leve e intrigante, que nos chama mais a atenção para a busca pelas respostas do que para elas de fato.

Scott Hahn era de uma família nominalmente presbiteriana, sem convicções mais profundas, mas seu interesse pelo protestantismo cresceu logo na juventude, o que o levou a tornar-se um sério estudioso de teologia. No entanto, afundou-se no anti-catolicismo e sua missão já não era somente levar almas a Cristo, mas levá-las para bem longe da Igreja Católica. Em meio a isso tudo, conheceu, apaixonou-se e casou com a convicta protestante Kimberly. Ela, diferente de Scott, não odiava a Igreja Católica, apenas tinha seus pontos contrários por questão de fé mesmo. E com essa ligação espiritual e sonhos em comum, seguiram uma vida conjugal para Cristo, cada vez mais a fundo na fé reformada.

Tudo começou a mudar quando Kimberly se matriculou num seminário de ética cristã, onde ela escolheu o tema contraceptivos como objeto de estudo. Esse é um tema controverso até mesmo entre cristãos, e a visão católica é única a respeito, o que levou Kimberly a compartilhá-la com Scott, que resolveu ler o livro O controle de natalidade e a aliança matrimonial, de John Kippley. Tudo isso levou o jovem casal a encontrar a verdade de que precisavam para a vida matrimonial e abandonaram os contraceptivos para confiar na Providência Divina. Reproduzo aqui este trecho do livro com um dos argumentos que os levaram a tal decisão:

"O argumento de Kippley era que qualquer aliança tem um ato pelo qual se consuma e se renova e que o ato sexual dos conjuges é um ato de aliança. Quando a aliança matrimonial se renova, Deus utiliza-a para dar nova vida. Renovar a aliança matrimonial e usar contraceptivos para evitar uma potencial nova vida seria tanto como receber a Eucaristia para a seguir a cuspir no chão.
Kippley prosseguia dizendo que o ato conjugal demonstra de modo único o poder doador de vida do amor na aliança matrimonial. Todas as outras alianças mostram e transmitem o amor de Deus, mas só na aliança conjugal o amor é tão real e poderoso que comunica a vida.

Quando Deus fez o ser humano, homem e mulher, o primeiro mandamento que lhes deu foi o de serem fecundos e se multiplicarem. Era assim uma imagem de Deus: Pai, Filho e Espírito santo, três em um, a família divina. De maneira que quando "os dois se fazem um" na aliança matrimonial, o "um" torna-se tão real que nove meses depois podem ter que lhe dar um nome! O filho encarna a unidade da sua aliança."

Apesar de realizar o sonho de sua esposa de casar-se com um pastor presbiteriano e de continuar a levar as almas para perto de Jesus e (que ironia) longe da Igreja, as descobertas não pararam por aí: o argumento de que nos salvamos exclusivamente pela fé não se encontrava na Bíblia, nem mesmo nas Epístolas de São Paulo, caindo por terra um dos principais fundamentos do protestantismo - a sola fide. Inclusive a Bíblia nos ensina, na Epístola de Tiago 2, 24, que "o homem se justifica pelas obras, e não apenas pela fé". Outro ponto culminante dos estudos de Scott foi sobre a Eucaristia, quando ele percebeu que a comunhão significa a renovação da nossa alianca com Cristo e, pois, deveria acontecer constantemente, tal como a renovação da aliança matrimonial, levando essa conclusão à sua Igreja, que aprovou a comunhão semanal por unanimidade. Parece católico demais? Não para por aí.

O próximo "dogma" protestante a ser derrubado pelos estudos do pastor foi o Sola Scriptura. A Bíblia afirma que toda a Escritura é inspirada pelo Senhor e útil para ensinar, mas em momento algum se delega toda a inspiração divina e ainda reconhece o valor da tradição e a Igreja como pilar e fundamento da verdade. Não preciso nem ressaltar o quão impactante essa descoberta foi para Scott. A doutrina da Sola Scriptura não pode ser demonstrada com a Escritura!

Com isso, foi inevitável para Hahn buscar mais, então passou a ler cada vez mais a doutrina católica e seus grandes escritores e, à medida em que encontrava a verdade na Igreja, seu chão caía e ficava perdido, já que ele não era apenas um pastor presbiteriano, mas sempre foi um leal anti-católico. Para Kimberly, tudo isso era horrível, ela nem se interessava em ouvir as descobertas do marido e só queria que alguém o convencesse novamente da verdadeira fé reformada. E as tentativas não foram poucas, Scott conversou com vários amigos e teólogos, mas nenhum resultado. Pelo contrário, alguns o acompanharam nos estudos do catolicismo e na árdua busca pela Verdade.

Quando Kimberly já não via mais volta para o caminho que Scott adentrou, a tristeza a abateu, mas ele fez uma promessa de que, antes de 1990, não se converteria ao catolicismo. Eles já haviam começado uma família, e crianças são sempre bênção, ainda mais para um casal cristão; o casamento, no entanto, não estava indo bem, pois o laço espiritual que antes os uniu já não havia mais.

Scott foi firme na promessa e, durante o livro, até dava uma certa agonia ao senti-lo lutar contra a conversão. Mesmo indo à Missa, e apesar de sentir que Cristo o chamava à Eucaristia, ele resistiu. Até que um dia, ao descobrir que o seu amigo Gerry (aquele que primeiro tentou convencê-lo sobre a verdade do protestantismo e que acabou por segui-lo nos estudos contrários) e sua esposa abraçariam o catolicismo na Vigília Pascal de 1986, ele quis retornar à casa do Pai, conforme Deus o chamava há tempos. No entanto, a sua promessa o impediu e Kimberly o lembrou disso ao conversarem a respeito, mas Scott levantou uma questão que, para mim, foi o ponto central do livro: "tenho receio de ter chegado a um ponto no qual adiar a minha obediência seria desobediência". E então, quatro anos antes da data prometida, na Vigília Pascal de 1986, Scott Hahn recebeu o grand slam sacramental: o Batismo condicional, a Penitência, a Confirmação e a Primeira Comunhão.

Com isso, o casamento dos Hahn passou por um momento tenebroso, em que a distância espiritual entre o casal até me fez pensar que chegariam ao fim do casamento. Eles, porém, como cristãos, perseveraram e foram muito maduros e sábios. Inclusive Kimberly, mesmo profundamente triste com tudo isso, entregou a educação religiosa das crianças ao marido, ou seja, ainda confiava na importância da submissão a Deus e ao esposo de que a Bíblia falava. E em meio a todos os problemas de um casamento misto, aconteceu um aborto que levou Kimberly ao hospital, onde Scott observou brilhantemente: "Será possível que Deus nos ame tanto? Uma vez que por ti própria nunca te terias interessado em conhecer o catolicismo, talvez Ele tenha convertido a mim primeiro e me tenha feito passar por esta terrível solidão – isolado de muitos protestantes, e de tantos católicos da Universidade, a quem não interessa nada o que fiz, para não falar da solidão entre nos os dois – para te poder mostrar gradualmente a beleza da Igreja Católica, para te acolher também a ti no Seu seio, para te abençoar com os Seus sacramentos, para te dar a plenitude da fé que já possuis." E foi aqui que percebi os planos de Deus para o casal e que Ele sabia exatamente como fazer dar certo: a conversão de Scott antes e o sofrimento no casamento foram necessários para que Kimberly chegasse à verdade na Igreja Católica. É claro que ela não acreditou que tudo isso era prova do amor de Deus, sua relutância durou muitos anos, até que, na Vigília Pascal de 1990, ela foi recebida na Igreja Católica. A conversão de Scott se deu pela sua busca intelectual; a de Kimberly, pelo convencimento gradual, por parte do marido, dela mesma e de seu relacionamento com Deus.

Eu fiquei me perguntando se o casamento continuaria com as coisas como estavam. Não dá para negar que a distância espiritual acarreta muitas problemas e a religião influencia na educação dos filhos, na administração do lar, nos valores familiares etc., então é ingenuidade de quem pensa que a diferença religiosa não importa entre um casal porque só o "amor" basta. É o que dizem: "a virtude não se improvisa". As coisas não são tão simples. Mas se o próprio amor requer bases cristãs, o casal Hahn vivenciou isso muito bem, e sei que a base cristã tão sólida deles os preservou no casamento e os uniu na fé novamente, pela vontade de Deus.

O livro continua com o testemunho de unidade familiar, sob a orientação de Scott, agora que todos se encontravam em casa na Igreja Católica e com um apelo ao católicos para serem cristãos bíblicos (e vice-versa).

Enfim, a trajetória religiosa de Scott e Kimberly Hahn é emocionante, todos deveriam conhecê-la: mesmo os católicos doutos na doutrina, mesmo os não-cristãos que pouco se interessam por religião e espiritualidade e, principalmente, os cristãos protestantes, pois, de maneira clara e irrefutável, pontos muito relevantes são esclarecidos. É uma história importante, ainda, porque mostra notavelmente como, muitas vezes, lutamos contra a verdade que chega aos nossos olhos, por medo da mudança, de encarar a realidade e, principalmente, medo de admitir que sempre estivemos errados; mas nunca é tarde para deixar de resistir, Deus não desiste de nós e quem o procura com sinceridade certamente o encontrará, basta que utilizemos dos meios necessários para chegar a Ele, sejam quais forem. Os de Scott e Kimberly foram árduos, os nossos também podem ser... e que sigamos com a nossa cruz.

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