Resenha: A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, de C. S. Lewis

O que C. S. Lewis chama de "esnobismo cronológico" é preocupante em relação às discussões, acadêmicas ou não, sobre tempos passados, sobretudo sobre o que chamamos de Idade Média, pois leva a impressões erradas sobre essa época tão subestimada quanto desconhecida. Diante disso, Clive Staples nos leva à realidade medieval de maneira profunda e surpreendente, com esclarecimentos e análises sobre uma mentalidade tão distante e, ao mesmo tempo, tão próxima de nós.

O último livro de Lewis, publicado postumamente, A Imagem Descartada - Para compreender a visão medieval do mundo, é resultado das investigações do autor sobre essas questões. Não à toa, ele foi professor de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge; menos à toa ainda, ele trouxe ao mundo uma obra repleta de costumes medievais - as populares Crônicas de Nárnia. Para desfrutar das suas obras mais conhecidas, é recomendável e maravilhoso adentrar nos seus conhecimentos e influências sobre épocas e tradições anteriores. Antes de tudo, preciso ressaltar que C. S. Lewis é genial, considerado umas das mentes mais brilhantes e incrivelmente lógicas do século XX, pois isso aviso de antemão que sua leitura pode provocar arrepios a cada linha (pelo menos é o que acontece comigo). Agora vamos à obra!


No Capítulo 1, Lewis faz uma análise da situação medieval, partindo do estudo de duas obras: Brut, de Layamon, e Le Pèlerinage de l'Homme, de Deguileville. Ambas revelam uma mitologia enraizada na crença selvagem, que chegou aos medievais por meios dos livros, passando de geração em geração até manter um pouco de várias culturas. Isso releva um "caráter predominante livresco ou clerical da cultura medieval", o que a difere da comunidade selvagem, que absorve cultura pelo comportamento e/ou oralidade, e da nossa sociedade, cujo conhecimento depende mais da observação. A leitura era "o ingrediente mais importante da cultura total", apesar da rara alfabetização da época. Mas não só a tradição greco-romana, por meio dos livros, enraizou-se na Idade Média, a contribuição bárbara também, principalmente no que concerne à lei, aos costumes e à configuração geral da sociedade, bem como o pensamento, sentimento e imaginação pagãos sobreviveram nos únicos e insubstituíveis romances e baladas medievais. No entanto, estas, por estarem ausentes nas maiores obras da literatura medieval, como os hinos, Chaucer e Dante, mostram-nos que se tratam de coisas à margem da mente, justamente por não serem "o centro". Dessa forma, Lewis considera o homem medieval, em seu traço mais típico, não um sonhador ou um peregrino, mas "um organizador, um decodificador, um construtor de sistemas". Exemplos perfeitos disso são a Summa de São Tomás de Aquino e A Divina Comédia de Dante, além da própria síntese medieval, toda a organização de sua teologia, ciência e história, que constroem um modelo essencialmente livresco e sistemático. Esse contexto só foi possível porque os homens medievais acreditavam no que os autores antigos escreveram, com isso, herdaram uma coleção bem heterogênea de livros - judaicos, pagãos, platônicos, aristotélicos, estoicos, cristãos primitivos, patrísticos - e mesmo de gêneros literários. Diante disso, o autor nos leva a refletir sobre essa relutância em simplesmente desacreditar em algo de um livro, pois o ideal é harmonizar as aparentes contradições, da forma como os medievais faziam e, em consequência, aperfeiçoaram um Modelo perante o qual o homem moderno acredita estar livre e, no entanto, está reduzido como diante de uma obra de arte. O intuito de C. S. Lewis é convencer o leitor de que esse Modelo do Universo medieval "é a obra central, à qual a maioria das obras particulares estavam ligadas, à qual faziam referência constante e da qual colhiam grande parte de sua força" e à qual devemos muito mais do que gostaríamos de admitir.

Mr. Tumnus apresenta uma "Balada de Nárnia" para Lucy Pevensie em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa.

No capítulo 2, o autor faz algumas ressalvas quanto a esse Modelo medieval, de modo a concluir que ele é um construto de perguntas respondidas e, por isso, ele importa mais para a literatura e arte que para os especialistas da ciência, filosofia e teologia, na medida em que diz respeito ao universo imaginário dessa realidade. Assim, o Modelo é destruído quando o especialista responde às questões velhas. Até isso, todos os pensadores que, de certa forma, influenciaram na história do pensamento medieval são úteis para a construção desse Modelo, que se daria "a partir do acordo real, ou suposto, entre autores antigos - bons ou maus; filósofos ou poetas; compreendidos ou incompreendidos - que, por qualquer razão, estivessem acessíveis". E embora houvesse níveis de influência mais baixos disso na sociedade medieval, ainda é possível observar seus elementos nas caseiras e desprovidas de arte Lendas do Sul da Inglaterra, mesmo que alguns níveis intelectuais e espirituais estivessem acima do poder completo do Modelo.

Como esse Modelo é quase um consenso do imaginário medieval sobre livros e autores antigos, Lewis apresentou algumas dessas fontes nos capítulos 3 e 4, nos quais há materiais selecionados dos períodos clássico e seminal, principalmente os menos conhecidos e que melhor ilustram o curioso processo pelo qual o Modelo as assimilou. No período clássico (antiguidade pagã): 1) A obra de Cícero foi o protótipo de muitas ascensões aos céus na literatura posterior, em Chaucer, Dante e muito da produção medieval, e o caráter geral de seu texto é característico de muito material que a Idade Média herdou da Antiguidade. 2) Lucano gozava de grande respeito no medievo e cada detalhe de sua obra "cruzará o nosso caminho em um autor ou outro". 3) Estácio e Claudiano e sua senhora "Natura" tornam mais compreensível a estima dos medievais pela Natureza, e isso não os confunde com os estoicos e outros panteístas, pois "eles acreditaram desde o início que a Natureza não era tudo. Ela foi criada. Não era a maior criação de Deus, tampouco sua única obra. Ela tinha seu lugar próprio, abaixo da Lua (...) Havia coisas acima dela e coisas abaixo dela. É precisamente essa limitação e subordinação da Natureza que a deixa livre para seguir uma carreira poética triunfante. Ao abrir mão da pretensão estúpida de ser tudo, ela se torna alguém. Mas, para os medievais, ela é só uma personificação. Um ser figurado nesses termos é evidentemente mais poderoso que uma divindade em que eles realmente acreditassem e que, sendo tudo, não é precisamente nada." 4) Apuleius ilustra o tipo de canal pelo qual fragmentos de Platão chegaram à Idade Média - o que proporcionou, junto com os tradutores latinos dos neoplatônicos, o clima intelectual em que cresceu a nova cultura cristã, a exemplo de Santo Agostinho - e apresenta dois princípios: o Princípio da Tríade, pelo qual os medievais fornecem pontes entre duas coisas, e o Princípio da Plenitude, que traz a ideia de que todo o universo deve ser habitado ou, em outras palavras, aproveitado.

Já o período seminal foi um tempo de transição entre o último estágio do paganismo e o triunfo final da Igreja. Dele, Lewis destaca: 1) Calcídio, com sua consmologia, transmitiu ao Modelo medieval o espetáculo da dança celestial, a qual o homem se eleva ao imitá-la, e a ideia de que a matéria está em constante aperfeiçoamento, o que resultaria principalmente na poesia latina do séc. XII, em harmonia com a herança de Estácio e Claudiano. 2) Macróbio, nas suas ideias de nuances entre os sonhos e de virtudes cardeais, traz ao medievo concepções neoplatônicas em um ambiente eminentemente cristão. 3) Os escritos de PseuDionisio são considerados o principal canal pelo qual a chamada "teologia negativa" entrou na tradição do Ocidente, mas a sua contribuição para o Modelo está na angeologia e nas suas Hierarquias Celestiais - o que acabou por ser aceito pela Igreja. Esse espírito está bem presente no Modelo medieval e, mesmo que descrente o leitor, Lewis acredita que basta exercitar a imaginação para perceber o amplo reajuste envolvido na leitura atenta dos poetas antigos e que "no pensamento moderno, isto é, no pensamento evolucionário, o homem está no topo de uma escada cuja base se perde na escuridão; nesse Modelo, ele está na base de uma escada cujo topo é invisível por causa da luz ofuscante." [Impossível ler isso e não lembrar da Trilogia Cósmica de C. S. Lewis, então penso: refletiria o Modelo até mesmo na sua obra, em pleno século XX?] 4) E, por último, Boécio, sobre o qual Lewis escreveu: "Aprender a apreciá-lo é quase 'naturalizar-se' medieval", pois sua apologia da Fortuna, defesa da Felicidade e doutrina da Providência&Destino se imprimiram na imaginação das posteriores eras, como no Modelo medieval, de maneira inigualável, especialmente no que conhecemos por doutrina do livre-arbítrio.

No capítulo 5, temos uma análise do pensamento científico medieval, que em muito (totalmente) difere do que o senso comum propaga com tanta presunção. Aqui, o foco é a astrologia, absorvida da Antiguidade e aperfeiçoada para a Renascença, ainda que a Idade Média tenha lutado contra o lucro em cima dela, o determinismo e o culto aos planetas, o que muitas vezes ocorre quando se trata desse assunto. Lewis conclui: "A imaginação humana raras vezes teve diante de si um objeto tão sublimemente ordenado quanto o cosmos medieval. Se ele tem uma falha estética, quem sabe isso seja pelo fato de que para nós, que viemos a conhecer o romantismo, ele seja um pouco ordenado demais. Por todos os seus espaços vastos, ele pode no final infligir-nos certa claustrofobia. Será que não há nenhuma incerteza em lugar algum? Nenhum atalho não descoberto? Nenhum crepúsculo? Será que nunca poderemos sair da soleira da porta?" E, em seguida, ele traz alívio a essas questões, levando-nos ao Reino desconhecido das Fadas.

The Faerie Queene de Edmund Spenser (imagem retirada do Pinterest).

Lewis dedicou o capítulo 6 aos Longaevi, ou seres de vidas longevas, mais especificamente aqueles seres fantásticos que tanto permeiam o universo criativo de Nárnia, que podemos chamar de fadas. A importância desses seres para o Modelo é justamente o fato de serem tão presentes nele quanto marginais, eis onde reside seu valor imaginativo: "Eles amenizam a severidade clássica do imenso design. Eles introduzem um quê selvagem e de incerteza bem-vindo em um Universo que está correndo o perigo de ser um pouco autoexplicativo e luminoso demais". As fadas trazem o mistério do desconhecido à tona e livram-nos da claustrofobia apontada por Lewis anteriormente. Com isso, é apresentado um estudo acerca da visão literária sobre essas criaturas, nos autores modernos e medievais, a partir da visão destes sobre aqueles e suas influências e nuances com base no Modelo Medieval. Por não saber exatamente onde as fadas se encaixavam nesse Modelo, nem mesmo quanto e quão conscientemente acreditavam nelas, elas tinham credibilidade suficiente para produzir teorias antagônicas sobre sua natureza, dentre as quais: de que são uma terceira espécie racional, anjos, mortas ou parte de alguma classe especial de mortos ou anjos decaídos. Poderíamos esperar que a ciência se importasse com essas Fadas Superiores; porém, Lewis acredita que elas tenham desaparecido pela redução da superstição. São seres completamente vivos no imaginário medieval (e posterior), mas, onde quer que eles tenham existido, continuam incógnitos.

No capítulo seguinte, inclusive o mais extenso do livro, vários temas relacionados à Terra e seus habitantes são trabalhados, a começar pelo conhecimento geográfico na Idade Média. Apesar de inegavelmente limitado, ele era menos ingênuo e muito mais prático do que a modernidade costuma lhe classificar, em relação à gravidade, à forma da Terra e aos continentes - ao mesmo tempo em que é muito romântico. Sobre a zoologia medieval, o que temos é mais uma pseudozoologia, bem fantasiosa e que envolve criaturas como fênix, pelicanos e unicórnios, mas extremamente importante para poder ler os poetas ou fazer um debate esclarecido sobre eles. Ele também dedicou uma parte deste capítulo à alma humana sob a ótica medieval e, por incrível que pareça, o sentido da razão, ponto máximo da alma humana, estreitou-se bem mais com o passar dos anos em relação à Idade Média. Também as relações "corpo e alma" e "corpo e emoção (no sentido d'esta refletindo naquele)" esteve em debate nesse período, bem como o estudo do "passado humano", que, pela humildade e dedicação, daria uma aula de processo histórico aos historicistas radicais. Lewis diz: "Historicamente, bem como cosmologicamente, o homem medieval se encontrava ao pé da escada; ao olhar para cima, ele sentia prazer. Olhava para trás como para a frente, com todo o espetáculo majestoso que isso reservava, e sua humildade era recompensada com os prazeres da admiração." Além disso e por fim, ele analisa a pedagogia medieval, nas conhecidas e insuperáveis sete artes liberais. São elas: Gramática, Dialética, Retórica (Trivium), Música, Aritmética, Geometria e Astronomia (Quadrivium).

Lewis chega ao fim do livro falando sobre a influência do Modelo, na imaginação perceptiva dos medievais, na Retórica, no prazer pelo Universo (o que difere do "amor pela natureza" no sentido de Wordsworth), na reprodução de autores passados e, sobretudo, na humildade da arte, mesmo que os artistas sejam orgulhosos de sua proficiência. Essa humildade difere em muito o homem medieval dos posteriores, principalmente hoje, em que "só o que fazemos é pensar que pensamos. Depois de ter tragado tudo, ele (o sujeito) devora a si mesmo. E 'para onde nós vamos' surge como uma questão mergulhada nas trevas." No Epílogo, encontramos um quase Elogio do Modelo Medieval e algumas diferenças entre ele e nosso próprio, com explicações que mostram a importância de compreender o pensamento/Modelo de um período muito mais que demonizá-lo ou endeusá-lo, o que acontece atualmente em relação à Idade Média e à modernidade, respectivamente.

Os detalhes sobre todos os autores citados no livro e sua importância na formação do Modelo de Universo medieval ficam para Lewis explicar, com a eloquência e a genialidade que só ele tem, mas o importante para o post é apenas a visão geral. E que fique claro que Lewis traz uma análise do pensamento medieval à luz da literatura, então, mesmo que abordados temas diversos, é tudo sobre literatura.

Por fim, eu deixo um apelo: que olhemos para a Idade Média tal como os medievais olhavam para a história; para eles, "havia amigos, ancestrais, benfeitores em todas as épocas. Cada um tinha o seu lugar, por mais modesto, em uma grande sucessão; não era preciso ser nem arrogante nem solidário".

Clive Staples Lewis.




Você pode encontrar esta obra aqui: http://www.erealizacoes.com.br/produto/a-imagem-descartada---para-compreender-a-visao-medieval-do-mundo (inclusive está em promoção).

Resenha: O outro lado do feminismo, de Phyllis Schlafly e Suzanne Venker

Eu sou uma antifeminista convicta, basta quinze minutos de conversa comigo para perceber isso. Até me considerar uma, percorri um longo caminho (não TÃO longo assim, já que só tenho 19 anos) de leitura e reflexão. É certo que sou conservadora por natureza, isso influencia muito, e, mesmo com todo o esforço contrário do meio escolar, universitário e midiático, não sofri muitas influências feministas em minha vida - nessas horas eu agradeço pela minha teimosia e personalidade forte, pois sempre me deixaram com um pé atrás diante dessas promessas de "salvação terrena" -, mas o estudo é requisito indispensável se há intenção de dar palpite por aí sobre qualquer assunto.

Quando achei que não podia odiar mais a ideologia feminista, a Editora Simonsen surge com a importantíssima obra de Suzanne Venker e Phyllis Schlafly, O outro lado do feminismo, repleta de argumentos fascinantes que me mostraram mais ainda o perigo do discurso feminista para as mulheres, homens, crianças, famílias e futuro, bem como a presença dele em lugares que eu sequer havia percebido.

Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que o livro é lindo demais, por fora e dentro, a capa destaca-se em qualquer prateleira e a edição ficou muito agradável. Com frases de diversos autores antes de cada capítulo, apêndices importantíssimos e argumentos impecáveis, O outro lado do feminismo, mesmo pequeno e simples, é uma obra riquíssima. Se você se preocupa com o assunto e tem interesse em descobrir onde o feminismo se encaixa - ou não - em sua vida, se ele merece crédito pela liberdade que as mulheres têm hoje ou é realmente dividido em três categorias (primeira, segunda e terceira onda), essa leitura é indispensável.


Suzanne Venker compartilha um pouco da sua história na introdução: Em meio a um ambiente já rodeado de discurso progressista e feminista, ela preservava outros valores graças à influência familiar, principalmente dos seus pais, que vieram da chamada "grande geração" (pessoas que passaram pela Grande Depressão). Isso modifica tudo numa sociedade repleta de mimados desacostumados com a dificuldade. Com isso, Suzanne se diferenciava das suas colegas em vários aspectos, como: enquanto elas não consideravam casamento e maternidade como plano de vida, este seria o centro da sua. E apesar de saber que precisaria trabalhar fora, jamais quis a carreira como razão da sua vida. Eu me vi nela aqui, e percebi que mulheres ainda, e mais ainda, hoje são vistas com desprezo por não terem um trabalho bem sucessido como meta maior da vida. Sobre isso, a autora faz uma pergunta muito pertinente: "quando se trata de independência das mulheres, onde o conservadorismo se encaixa?" Se refletirmos, fica claro que mulheres conservadoras não têm vez no feminismo, porque este não diz respeito a elas, invalidando a ideia de feminismo como movimento das mulheres. O próprio livro responde: "O movimento feminista nunca foi a favor de todas as mulheres, apenas das liberais. Não foi idealizado para criar condições de igualdade, e sim para reorganizar a sociedade a fim de tornar a vida mais conveniente para as feministas. O movimento foi idealizado 'para mudar o discurso, o tempo e a natureza do mundo'." Se tudo segue para que feministas consigam exatamente o que querem, seja qual for o custo para suas famílias, e mulheres conservadoras sequer podem dizer que o são sem serem achincalhadas, então não, o feminismo não luta pelas mulheres. E para completar, Suzanne tem como tia ninguém menos que a Phyllis Schlafly, nossa outra autora e a mais importante antifeminista do século passado, conhecida pela luta contra a Emenda dos Direitos Iguais (1970). Phyllis é uma mulher forte, corajosa e destemida, enfrentou a fúria da mídia e das feministas praticamente sozinha e, com isso, foi impossível não ter grande influência sobre Venker. Antes que vocês se assustem pela resistência a uma emenda com o nome tão bonitinho, ela esclarece: "As feministas atuam assim: elas usam uma terminologia favorável -  direitos das mulheres, direito de reprodução, violência contra as mulheres - para atrair a comoção das pessoas e marginalizar aqueles que discordam, fazendo-os parecer atrasados ou provincianos". Ao longo do texto, voltarei ao assunto da emenda. Vamos lá!

A princípio, o livro pontifica onde o discurso feminista age - universidade, mídia, paletras, cursos e eventos sobre o "movimento das mulheres" etc. -, de modo a convencer a sociedade e as próprias mulheres de que estas sofrem opressão e que podem ser libertadas mediante o seguimento da agenda progressista. A maioria das mulheres são atraídas por esses jargões aparentemente agradáveis e, ao contrário, são confundidas, fazendo-as sentir-se em conflito consigo mesmas e a sociedade, quando elas só queriam ouvir sobre casamento, maternidade, trabalho, estudo e conquistas das mulheres. A confusão se instaurou tão profundamente na mente dos americanos (o que se estende aos brasileiros também), que, hoje, "acreditam que para o progresso existir é necessária a libertação das mulheres - libertar-se dos homens, dos filhos, dos conceitos da sociedade, de quase tudo que faça a mulher se sentir moralmente obrigada a alguém ou alguma coisa que não seja ela mesma". Como difundem isso sem causar espanto nas pessoas que consideram o feminismo um movimento radical? Simples, abandonaram o termo "feminista". Ao fazer isso, fazem com que a sua agenda seja convencional e que pareçam mais racionais que as feministas extremistas (da chamada terceira onda), tornando-as muito mais perigosas que estas. É por isso que muita gente pensa que o feminismo morreu e só sobraram alguns resquícios em ativistas malucas que não são levadas a sério pelo cidadão comum, mas o livro explica: "O feminismo e as feministas não desaparecem só porque não fazem mais passeatas nas ruas. Elas simplesmente se livraram dos protestos barulhentos e se transformaram na essência da sociedade."

Na década de 60, a revolução contracultural pregava ser a continuação daquilo que começou com as sufragistas, e até hoje as difusoras do feminismo acreditam nisso e se vangloriam pelas conquistas de mulheres que se baseavam na família e jamais quiseram erradicar a natureza feminina. Na verdade, o feminismo possui pautas político-ideológicas muito específicas, de origem marxista, e visam à reestruturação da sociedade que, segundo elas, oprime as mulheres. Muito mais do que igualdade, querem um novo mundo onde elas possam realizar todas as suas vontades. Isso fica claro com o exemplo de Betty Friedan, autora do livro Mística Feminina, que teve muitos problemas familiares ao longo da vida e vivia em um casamento desastroso, numa vida doméstica opressiva de verdade. Ao invés de tentar solucionar seus problemas pessoais, ela produziu uma obra que acusava a sociedade de todos os males das "donas de casa entendiadas", o que atraiu mais e mais mulheres que preferiam culpar os outros em vez de buscar a solução para seus próprios problemas interiores - e ajudar outras mulheres a fazê-lo também. E assim aconteceu com Virginia Woolf, Gloria Steinem, Simone de Beauvoir e muitas outras. É muito mais fácil evitar responsabilidades, na maternidade, família e vida pessoal, criando um problema social do que encarando a ideia de que é possível ser feliz com o sacrifício. E isso sobra para quem? As crianças, sobretudo, pois criou-se uma onda interessada no que as mulheres querem, e não no que as crianças precisam, enquanto filhas. Além de um problema social, isso é um problema extremamente moral, pois sempre fez parte da natureza humana a ideia de que as pessoas são responsáveis por suas próprias crias, é o mínimo. Essa é a geração da Emenda dos Direitos Iguais (ERA).

*Betty Friedan.

Foi aqui onde a Phyllis Schlafly tornou-se tão influente nos Estados Unidos, pois ela liderou, ao lado de mais algumas mulheres, o Stop ERA. O que parecia ser uma guerra invencível (Direitos Iguais é uma terminologia boa, não?) deu uma reviravolta quando essas corajosas mulheres invadiram a mídia e mostraram a fraude que era a Emenda que afirmava inserir a mulher na Constituição. Ao contrário das entusiastas da ERA, elas leram a Constituição americana e sabiam que ela era totalmente neutra em questão de sexo e que a emenda tiraria das mulheres muitos dos seus direitos, como não ser obrigada ao alistamento militar e o direito (direito, não dever) de ser sustentada pelo marido. Os americanos viram, aos poucos, que visavam à legalização do aborto, as pautas LGBT e mais dezenas de ideais de esquerda, muito diferente dos direitos das mulheres, pelos quais diziam lutar. Com isso, o movimento conservador ganhou força e voz e impediu a Emenda dos Direitos Iguais, o que não significa o fim do sucesso feminista na missão de "transformar radicalmente os Estados Unidos", este veio a ser praticamente o projeto de governo de Barack Obama depois.

Ao longo do livro, as autoras mostram como as feministas estão em estado de negação à própria natureza, por meio de três princípios que impregnaram em nossa sociedade: as feministas estão aprisionadas pela visão negativa sobre a mulher e seu lugar no mundo; entre todas as injustiças perpetuadas sobre as mulheres (perpetuadas por quem? Deus?) ao longo dos séculos, a mais opressiva é que as mulheres podem gerar filhos e os homens não; e não existe diferença entre homens e mulheres exceto por seus órgãos sexuais. Ao negar sua própria natureza, as mulheres caminham para longe da racionalidade e de qualquer resposta para como e por que as coisas são como são para nós. Outro ponto importante é a insistência em afirmar que as mulheres são discriminadas no local de trabalho, de modo a atrair as americanas com a ideia de independência e sucesso na carreira; acontece que há muito espaço no topo, a questão é que as mulheres não recebem tanto quanto os homens porque "a maioria não tem vontade de levar a vida exigida pela maioria dos cargos bem remunerados". Seja na política ou em qualquer outro lugar, a maioria das mulheres não querem deixar tudo para trás para dedicarem suas vidas as trabalho, e são felizes assim, com seus trabalhos de meio período, filhos ou mesmo sustentadas pelo marido - para o desgosto das feministas. "A profissão deveria ser a cereja do bolo, não o bolo todo", brincam acertadamente as autoras. Além disso, o livro esclarece os reais motivos pelos quais as mulheres precisaram trabalhar fora, o que não é "mérito" algum das feministas, que, pelo contrário, só tornaram essa exigência exterior ainda mais difícil para as mulheres.

Em meio ao caos gerado pelo pensamento feminista, talvez o mais prejudicial às mulheres tenha sido o de que devem fazer sexo com quantos parceiros sexuais puderem. Ao fomentar o sexo casual e ignorar qualquer valor relacionado ao sexo, este deixa de ser algo virtuoso (valor preservado durante séculos e violado como num passe de mágica pela revolução sexual de 30) e a decepção ainda sobra para as mulheres, que esperam mais dele, querendo as feministas ou não. É o que a Dra. Grossman relata no livro: "As personagens de Friends e Sex in the City não são reais. Na vida real, Phoebe teria herpes e Carrie teria verrugas genitais". Na ilusão de que poderiam fazer sexo e depois o amor do parceiro viria ou que o "amor livre" é natural e saudável, a garota americana normal se subverte e isso traz graves consequências para os casamentos e continua adiante. O livro elenca algumas: 1) homens e mulheres têm sido criados em uma cultura que se recusa a aceitar a natureza única de machos e fêmeas, assim, suas relações carregam tensão e conflitos desnecessários; 2) a maioria dos jovens está sendo afetada de forma direta ou indireta pelo divórcio, o que resulta numa falta de confiança no casamento, que, por sua vez, resulta em mais divórcios. Por isso que o casamento se esquiva cada vez mais da geração moderna, mas seus propósitos e benefícios continuam intactos, assim como o desejo das pessoas por ele. O problema nunca foi o casamento em si, enquanto instituição, mas a imaturidade das pessoas em saber lidar com o que ele requer delas. A mudança, no entanto, é possível, e deve partir da nossa atitude, a começar pela aceitação de que homens e mulheres são, sim, diferentes e pela compreensão acerca do nosso papel no mundo e, em consequência, na vida conjugal. É fundamental também que nos atentemos à importância de escolher bem o cônjuge; muitas vezes, deixamos de escolher o que é certo para satisfazermos às nossas vontades efêmeras, mas o certo deve ser buscado a todo custo, e a felicidade vem por consequência.


As 'mulheres da mídia' também fazem um trabalho capcioso quando o assunto é mulheres trabalhadoras (e aqui o livro se refere às de tempo integral, que terceirizam seu papel de mãe a babás e creches). Não só mentem sobre uma suposta multitarefa que as mulheres conseguem fazer, como são incapazes de refletir sobre o bem-estar dos fillhos em paralelo à sua ausência em casa. Como sempre, tudo começa com a dificuldade delas em encarar a realidade. Resultado: as crianças foram praticamente jogadas a esmo, para se virar por conta própria quando o assunto é saúde, educação, moralidade e suas reais necessidades. "As feministas querem que você pense que a razão das mães no passado não fazerem o que as mães de hoje fazem é porque as mulheres eram oprimidas. Mas a verdadeira razão das mulheres terem planejado suas vidas da maneira que planejaram é porque elas eram menos focadas em si mesmas e mais preocupadas com o bem maior, e parte do bem maior se referia a assumir a responsabilidade de ter filho". Surgiu, com isso, um remorso sem tamanho para essas mulheres, estampado nas capas de revistas, livros e guias para conciliar todas as funções da mulher moderna. Ela está se afundando, e 'até que perceba que o remorso é a voz da consciência, continuará a afundar cada vez mais fundo'. A culpa disso é toda das mulheres? Claro que não, elas têm as bênção da sociedade e foram criadas em uma cultura de relativização moral que as fazem ignorar a consciência. O livro sugere a "sequenciação", que significa planejar o futuro, em algumas fases: fazer uma escolha inteligente da carreira, planejar a vida perto da família de origem assim que tiverem filhos, não "esbanjar" antes de casar e escolher um marido que trabalhe em tempo integral num emprego adequado às necessidades da família. Além disso, é indispensável que as mulheres conheçam o que há por trás da terceirização da criação dos filhos por meio das creches, o livro desmistifica tudo o que se diz a respeito e mostra que o tempo, dinheiro e energia gasto com creches poderia ser usado para fortalecer a família americana.

Como toda ideologia progressista, o feminismo é estatista por natureza, não perde a oportunidade de jogar seus problemas para o "Deus-Estado" resolver. Desse modo, muitos dos seus ideias tornaram-se planos de governo, como já foi dito aqui, de forma que: 1) o financiamento de creches aumentou, e o livro mostra como isso não ajuda as crianças, apenas serve para facilitar a vida dos pais; 2) os processos judiciais sobre questões de diferenças salariais viraram refúgio, já que basta afirmar que mulheres ganham menos que homens, sem explicar o porquê, o que é uma baita ignorância, pois, em regra, homens trabalham mais horas por semana, exercem trabalhos mais arriscados, em locais menos desejáveis, em condições de trabalho menos agradáveis e fazem treinamento mais técnico do que mulheres, que, em sua maioria, trocam com alegria promoções profissionais por mais tempo com a família, mas nada disso importa para a agenda feminista; 3) as políticas de casamento tornaram o governo do Grande Irmão o sustento das despesas de mães solteiras (mas o homem sustentar a casa é tudo fruto de uma conspiração machista, né?), e isso pode ser confirmado pelo documento de John Podesta, por exemplo, apresentado em alguns de seus itens por Venker e Schlafly.

Mas não podia ficar de fora o principal alvo da ladainha feminista: o homem. "Em apenas poucas décadas, as mulheres americanas conseguiram rebaixar os homens de provedores e protetores respeitados a um ser desnecessário, irrelevante e dispensável", como nas palavras de Jennifer Aniston para a revista People, em 2010, "Eu não preciso de um homem para ser mãe". Desde o jardim de infância, os meninos são ensinados a reprimir seu comportamento masculino, em um processo assustador de feminização e fuga de sua natureza. Na juventude, até os esportes tiveram de se adequar às teorias feministas para não haver "opressão" devido ao senso de competitividade masculino. O delírio é tão grande que os esportes universitários deveriam ser obrigatórios para as mulheres, mesmo a maioria não querendo praticá-los. E não é só isso: encontros entre homens e mulheres tornaram-se arriscados, qualquer palavra masculina deve ser prévia e repetidamente calculada para não "ofender" e ser acusado de "machista" ou mesmo "estuprador". Assim, os relacionamentos se dificultaram e mesmo o incetivo dos homens ao casamento se foi, pois a ideia de sexo à vontade e morar junto se difundiu de tal maneira que a regra agora é essa. "As feministas não sabem o que querem. Elas lutam para se protegerem contra os próprios erros, mas em contrapartida, lutam pela liberdade de cometer esses erros. Elas querem liberdade sexual, mas também o poder de punir o homem quando mudarem de ideia." Em decorrência de tudo isso, não é de se espantar que muitos casamentos perderam o sentido, começou uma guerra no lar, mais precisamente contra o pai, e o divórcio unilateral virou rotina. Todos esses males vão influenciando os filhos, depois toda uma geração estará no caos, e só Deus sabe onde vai parar. Mas como poderíamos ajudá-los (nossos filhos) a lidar com esse mundo injusto criado pelas feministas? Voltar às nossas raízes morais é um bom começo, pois só com coragem, honra e inteligência é possível perceber essa situação e fazer diferente.

Por último, é importante encontrar um novo caminho para as mulheres, visto que o feminismo só trouxe mal para a sociedade, e retirar as jovens mulheres, criadas para se sentirem em conflito, desse barco afundando. Entender a natureza humara é crucial para isso, não negá-la. "Devemos parar de falar sobre direitos das mulheres, as necessidades das mulheres, os problemas das mulheres e o avanço das mulheres. Devemos parar de falar sobre o poder feminino, sobre o aumento do poder das mulheres e sobre a destruição de um patriarcado que não existe. Quando armamos o debate sobre o jargão feminista, promovemos uma guerra entre os sexos. É hora de acabar com a guerra entre os sexos. Os homens não são inimigos." Senão a começar pela volta ao respeito mútuo entre os sexos, qualquer tentativa de avanço cultural é inútil. Isso é extremamente difícil, pois requer o abandono de crenças incutidas em nós há décadas, mas precisamos refletir sobre o assunto. Se o patriarcado começou a ser derrubado pelo movimento de libertação das mulheres, por que o mundo está cada vez pior para o cidadão comum? Por que as crianças estão cada vez mais revoltadas? Por que o conflito entre os sexos tira cada vez mais a paz nas famílias? Por que as mulheres não estão mais felizes, pelo contrário? A solução começa no que os filósofos concluíram há muitos e muitos séculos: Todos têm potencial para uma vida feliz, e só seremos felizes quando assim o quisermos.

*Frederick Cotman, 1880.

"Rejeitar o feminismo significa rejeitar a igualdade das mulheres? Não, pois o feminismo não se trata disso. Rejeitar o feminismo significa reconhecer que as mulheres não precisam do feminismo para torná-las iguais aos homens, porque homens e mulheres já são iguais - só não são a mesma coisa. Rejeitar o feminismo significa rejeitar a libertação das mulheres? Sim, se a libertação consistir em libertar as mulheres do casamento e da maternidade. Aprendemos da pior forma que não há nada de fortalecedor em ignorar a biologia de um ser."

Disseram-me que só a luta é capaz de mudar alguma coisa, mas a visão de luta dessas pessoas está distorcida ao reduzi-la somente a greves, mutirões e passeatas; disseram-me que uma mulher forte pode mover montanhas, mas não aguentam nem o peso que é assumir as próprias responsabilidades sem culpar um fator externo e abstrato; disseram-me que o amor é revolucionário, mas são capazes de vitimar suas famílias em prol de seus próprios prazeres; dizem que feminismo é se sacrificar por um ideal, mas não é sacrifício se seu maior objetivo é afagar o próprio ego. O mundo não precisa de luta, revolução e força de quem sequer entende o que essas coisas são, o mundo precisa de pessoas sensatas, compreensivas e capazes de encontrar seu lugar na vida.




Se o que escrevi aqui te fez refletir um pouco, não perca tempo, leia o livro, ele vai MUITO além de tudo o que foi foi dito aqui.
Você pode encontrá-lo em: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-715459962-livro-o-outro-lado-do-feminismo-_JM, bem como nas livrarias Cultura e Saraiva.

Dica de filme: Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's)

Provavelmente você já ouviu falar desse clássico do cinema, e se ainda não viu, não perca tempo: veja agora mesmo!


Bonequinha de Luxo é um filme estadunidense de 1961, dirigido por Blake Edwards e estrelado por Audrey Hepburn e George Peppard. Ele conta a história de Holly Golightly, uma acompanhante de luxo que mudou-se para Nova York a fim de virar um atriz famosa e casar com um homem rico. Devido às circunstâncias, ela passa a receber dinheiro em troca de visitar, nas quintas-feiras, o mafioso Sally Tomato na prisão. Apesar de considerar-se um ser livre e selvagem, seus planos mudam de direção após conhecer o escritor Paul Varjak.

Não tenho o intuito de dar spoilers, então sem mais detalhes sobre o filme, mas deixarei aqui um pouco do seu impacto sobre mim.


Por mais que o filme seja uma comédia dramática que retrata a vida de Golightly, tive a impressão de que ele fala muito mais sobre prisões interiores. Holly tinha uma falsa ideia de liberdade, achava que criaturas selvagens como ela não deveriam manter laços, se prender de verdade a algo ou alguém ou mesmo se apaixonar. Nessa ilusão, ela criou suas próprias correntes e afastou de si a felicidade.

Não existe prisão pior do que se enclausurar nas profundezas da alma. Quando criamos nossa própria jaula, evitamos vínculos e responsabilidades e, no fim, acabamos infelizes e culpando um fator externo pelas nossas mazelas. As pessoas se relacionam, amam e são amadas, constroem algo e isso não tira a sua liberdade, pelo contrário, dá asas para nos libertar do cativeiro que é viver somente para nós mesmos.

Ao longo do filme, o que se vê é uma história clichê e bobinha, mas o final traz um dos sermões mais lindos que já vi no cinema, no qual Paul realmente deixa Holly sem palavras e nós, espectadores, com algo para refletir.


Além disso, a atuação da belíssima Audrey Hepburn é impecável, oferecendo-nos uma personagem ingênua, doce e engraçada; e a trilha sonora, então, nem se fala, a cena em que Holly canta "Moon River", de Henry Mancini, é clássica, por isso venceu em duas categorias no Oscar - melhor canção original e melhor trilha sonora. Por fim, se fosse descrever o filme em uma palavra, seria esta: belo. É isso que encanta no filme, sua beleza que emociona e sensibiliza, então, embora não seja uma história cheia de reviravoltas e surpresas, é maravilhosa pela maneira que é contada. 



PS: Você pode encontrar este filme na Netflix.

3 lições da série Descendants of the Sun

Não é preciso ser um grande admirador da cultura sul-coreana para reconhecer a qualidade do que ela produz, por isso suas séries/novelas (doramas), por exemplo, agradam o mundo inteiro. Eu, particularmente, relutei a dar uma chance devido ao trauma que uma novela japonesa (um episódio) me causou. Mas depois de me render à música coreana, não resisti a assistir às novelas, depois das avaliações positivas de uma amiga, mais especificamente sobre uma: Descendants of the Sun (tem na Netflix).

Como eu não conheço direito nada disso, não criei muita expectativa nem tenho comparações a fazer com outros doramas. Mas o enrendo, ambiente, diálogos, personagens, fotografia e trilha sonora me surpreenderam demais, tanto que ainda não consegui assistir a mais nada com medo de que não chegasse aos pés. Assim sendo, preciso compartilhar aqui os pontos que mais me encantaram no drama.

O enrendo de Descendants of the Sun é o romance entre o capitão das forças especiais Yoo Shi-Jin e a médica-cirurgiã Kang Mo-yeon que, devido aos empregos difíceis, acabam por se separar, até que a vida os une novamente, quando Mo-yeon é nomeada para liderar um trabalho voluntário em Urk, onde Shi-jin está com seus soldados.

A maior parte da série não se passa na Coreia do Sul, mas nesse pequeno país fictício (Urk), onde os personagens se deparam com pobreza, terremotos, epidemias e sofrimento. Isso é até normal para os soldados coreanos, mas uma realidade nova para os médicos voluntários. Apesar de achar que este último tema poderia ter sido mais explorado, gostei dos resultados desse contexto para a trama e até mesmo para o romance, pois trouxe um toque de ação para a série melodramática e de dificuldade para o romance entre os personagens principais. Além disso, a fotografia da série é sensacional, proporcionando imagens de tirar o fôlego, e, como eu vivo dizendo: a beleza transcende a alma. A seguir, algumas imagens:





A trilha sonora também é linda e contribuiu muito para que a série se tornasse um hit. Além de emocionantes, as músicas se encaixaram bem nas suas respectivas cenas, o que é uma forma também de tocar o público. As minhas favoritas são: 
Always - Yoon Mi Rae; 
Talk Love - K.Will; 
You are my everything - Gummy; 
Once Again - Mad Clown;
&
Everytime - Chen feat. Punch.

Dado isso, ficam as principais lições que pude tirar da série:

1. Lealdade, honra e coragem: lema para o Exército e para a vida
Os valores e princípios dos soldados são inspiradores. Descendants of the Sun retrata o código moral deles muito bem, mostrando como o companheirismo é responsável pelo sucesso nas missões e também suporte para os desafios que a carreira militar traz. Dá para perceber também que essas virtudes que a carreira pede, "lealdade, coragem e honra", atingem os soldados em todos os aspectos de sua vida, tornando-os não somente bons profissionais, mas boas pessoas. O melhor amigo do protagonista e sargento do Exército, Seo Dae-young, é o maior exemplo disso; ele não só foi leal ao capitão Shi-Jin até o último momento, como mudou a vida de Kim Ki-bum, que havia roubado o seu celular, ao dar outra chance a ele, o que o transformou em um militar também, inclusive um dos mais corajosos e honrados da série. É claro que o coração bondoso de Dae-young foi o ensejador de ato tão nobre, mas tenho certeza de que seus anos como soldado deram asas a todos os sentimentos bons que ele possuía dentro de si.

E o que falar do Big Boss (capitão Shi-Jin)? Falam que o jeito menino e sexy do ator Song Joong-Ki, claramente visível no Big Boss, foi o responsável por um personagem tão carismático; mas muito mais que pela graça, beleza e mistério do ator/personagem, Shi-Jin destacou-se por suas características singulares: coragem, inteligência e prontidão constante para se sacrificar por quem precisa. Com uma passagem de Tolstói, em Guerra e paz, podemos resumir esse personagem: "Experimentava agora o sentimento agradável da consciência de que tudo aquilo que constitui a felicidade das pessoas, os prazeres da vida, a riqueza e até a própria vida, são tolices que dá gosto descartar, em comparação com outra coisa... Com o quê, isso ele não conseguia responder, nem tentava esclarecer pelo que desejava se sacrificar, mas o próprio sacrifício em si constituía, para ele, um sentimento novo de alegria."

Tudo isso são virtudes que valem para a vida toda, em relação a todos, e a série mostra como a convivência com essas ações virtuosas interferem na visão de mundo dos médicos voluntários. Estes não estavam lá por vontade própria, embora fosse um trabalho voluntário, foram obrigados a ir pelo hospital onde trabalham; mas ao chegarem lá e se depararem com uma realidade tão sofrida, bem como com pessoas capazes de dar a própria vida para mudarem essa realidade (os soldados), eles viraram médicos e pessoas melhores, mais dispostos a ajudar o outro. Um exemplo disso é a protagonista, Mo-yeon, que, apesar de se preocupar demais em ganhar e ter dinheiro, venceu sua avareza para mudar a vida de Fatima, uma jovem que estava quase entrege à prostituição, mas que teve oportunidade de virar médica e ter uma vida melhor graças à ação de Mo-yeon. E fica claro na série a influência do capitão Shi-Jin sobre as mudanças dela, não somente por causa do amor deles, mas por encarar que, sim, seu exemplo deve ser seguido. E ela segue tão bem que realiza algo que ninguém na série inteira foi capaz de fazer, além de Dae-young: transformar radicalmente a vida de alguém.

Enfim, a moral é que: se quisermos ter sucesso na profissão, nos relacionamentos e como pessoa, o código moral de "honra, lealdade e coragem" é essencial. Não precisamos nascer assim, a virtude se adquire, mas o primeiro passo para nos tornarmos quem queremos ser é assumir quem somos. Se falta algo, tomemos o bom exemplo ao redor e mudemos.



2. Filosofias diferentes podem formar um bom romance (mas alguém tem que ceder um pouco mais)
O casal principal é muito bem construído, não tem dificuldades forçadas demais para atrapalharem o romance (como diferença de classe ou pais pressionando), o maior problema são eles mesmos. Shi-jin, como capitão das forças especiais, coloca a segurança da sua nação e das pessoas acima da própria vida, enquanto Mo-yeon, como médica, entende que a vida de todos é sagrada e não é certo tirar uma vida para proteger outra. São filosofias distintas (não contrárias). Além disso, ela não sabia se seria capaz de aguentar uma vida com um soldado, que passa meses sem dar sinal de vida e pode, a qualquer tempo, nunca mais voltar de uma missão, ainda mais ele, que nunca hesitaria em dar a vida para salvar alguém. Foram esses pensamentos o que mais atrapalhou o casal.

Diferente da maioria das pessoas, não critico Mo-yeon por ter relutado tanto a namorar Shi-jin, por motivos de: ela é adulta, quer um relacionamento sério e duradouro e jamais entraria num romance somente pela atração física que sentia. Por isso ela resistiu tanto, pois precisou pensar muito bem se estaria disposta a enfrentar um relacionamento assim. Mas o que certamente a fez amolecer foi a vivência naquela realidade das missões militares, onde a morte é ainda mais real que nos hospitais, onde os riscos são constantes, onde existe a regra do "matar ou morrer". Já pensou se Shi-Jin não seguisse sua filosofia ali? Provavelmente ela não estaria vida, pois foi ele quem a protegeu, e as crianças da vila fantasma estariam perdidas no sofrimento ou mortas, pois a vida de Argus, um criminoso, era um risco para segurança delas, tão inocentes.

Diante disso, um foi convivendo com a realidade do outro, de modo a perceber que nenhum estava errado, apenas presenciavam situações distintas, que requeriam decisões diferentes. A diferença entre eles não era moral, mas circunstancial. Assim sendo, o tão esperado romance deu certo, porque um entendeu o outro; no entanto, foi a médica Mo-yeon quem mais cedeu, pois o emprego dele era algo tão assustador para ela, que foi preciso um reexame reiterado de consciência para fazê-la perceber que, por mais medo que sentisse, o que Shi-Jin fazia era necessário e ela não poderia privá-lo de fazer o certo, mesmo que isso significasse sua morte. No fim das contas, quando os corações entendem um ao outro, dá-se um jeito de ficar unidos. A realidade pode ser diferente, mas os princípios, abnegações e amor é que os une.




3. Não se deve desistir de quem ama
Por mais clichê que essa lição pareça ser, ela é brilhantemente protagonizada pela tenente Yoon Myung-joo, na busca pelo seu amado Dae-young. Nessa série, o casal secundário conseguiu me arrancar mais lágrimas do que o principal. Eles tiveram um namoro por um tempo, mas o pai de Myung-joo não aceitava que a filha se relacionasse com um apenas sargento, então, como chefe dele, o proibiu de continuar. Dae-young percebeu que o comandante sinceramente acreditava que ela merecia mais, então ele passou a achar que não era digno dela. Myung-joo, no entanto, nunca desistiu, e dedicou um longo tempo a procurá-lo, persegui-lo e estar perto dele. Para ela, não importava que a profissão dele fosse difícil, que estivesse hierarquicamente inferior a ela ou mesmo a ignorasse, pois enquanto ele estivesse perto, tudo estaria bem.

O que me chamou a atenção foi que ela praticamente venceu pelo cansaço, tanto do sargento quanto do pai. Não era questionável o amor de Dae-young por ela ou a sinceridade com que o pai proibia o romance, o sentimento deles era verdadeiro, mas a perseverança de Myung-joo foi a chave para a sua felicidade. Se ela não fosse tão insistente, ao ponto de às vezes ser chata, seu pai e seu amor jamais teriam visto que o certo mesmo era a união deles, pois o amor existia e o que impedia não era (motivo) o suficiente para sufocá-lo.

Também não critico Dae-young. Se ele tivesse passado por cima do comandante Yoon, talvez fosse o fim do romance. Ele foi obediente e sábio, pois estava numa posição em que cabia a ele agir assim, não seria certo contrariar. Myung-joo não, estava nas suas mãos bater de frente com o pai, com Dae-young e com quem fosse preciso. É como dizem: as coisas são como devem ser; mas sem a insistência da tenente, o lindo romance deles não seria possível - e faltariam muitas lágrimas e risadas para a série. Por fim, jamais esqueçamos: quando certo e verdadeiro, a nossa função é jamais desistir.



Descendants of the Sun ficou no meu coração, pois tem tudo que gosto: romance, ação, emoção, clima descontraído. É engraçado e emocionante! Mas deixei o melhor para o final: Song Joong-ki (Shi-jin). Esse ator é lindo e talentoso demais, não é à toa que é o queridinho da Coreia. Fica o registro para apreciação:


"Como se dá a alguém um pedaço do Céu?"

Além das nuvens brancas e azul celeste, o desejo humano pelo que está no Alto ultrapassa a limitada matéria. Quando se questiona como dar ou ter um pedaço do céu, a resposta vai além da nossa razão, pois pedimos o céu, mas queremos o que ele representa - a eternidade, a plenitude, o Paraíso.

A questão real é "como dar a alguém um pedaço da eternidade?" É certo que existem inúmeras formas de trazer e levar experiências de eternidade a alguém, mas de forma tangível, conheço poucas. Dentre as quais, a mais eficaz, mais simples e mais prazerosa: livros. Quando falava sobre o pequeno-grande livro "Elogio da Leitura", me referi à literatura como esse modo de ir além da realidade e de si mesmo, modo esse que acalenta a nossa alma e afaga os nossos sonhos. 

Ao se dedicarem a me presentear com algo material, esses pontos são sempre bem interpretados pelos que me são caros: eles me brindam com um pedaço da eternidade. Esse ano não foi diferente, talvez tenha sido a minha melhor experiência de como receber um pedaço do céu.

Esses foram os frutos do meu aniversário e, neste post, falarei um pouco sobre cada um deles. A começar: 

Anna Kariênina - Liev Tolstói (Cosac Naify):
Eu sou apaixonada por livros bonitos. Apesar de saber que o conteúdo é o mais importante, tenho consciência de que a beleza atinge o objetivo de transcender a alma tanto quanto a mensagem do livro, e Anna Kariênina alcança isso de maneira esplendorosa, em todos os sentidos. Eu venho namorando essa chef-d'ceuvre (obra-prima) há tempos, mas as edições de luxo da Cosac pesam muito no bolso, então nunca comprei, e agora tive a alegria de ganhá-la. Além de lindíssima, as edições da Cosac têm ótimas traduções, o que aumenta mais ainda o prazer de ler um clássico da literatura. Tolstói é um gênio, uma mistura de sacro e profano, cristianismo e comunismo. Confuso, talvez, mas genial. E neste grande romance, ele ambientaliza o caso extra-conjugal (traição mesmo, não tem por que eufemismos) entre Anna e um oficial com as reformas liberais de Alexandre II, o industrialismo e o surgimento de uma nova elite, o que leva ao debate de muitos temas como família, desejo, fidelidade, hipocrisia etc. Enfim, bem flaubertiano, embora o estilo de Tolstói seja único a ponto de dispensar quaisquer comparações.


Antologia da Literatura Fantástica - Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo (Cosac Naify):
Mais uma beleza da Cosac e uma obra-prima para os amantes de literatura (principalmente fantástica) como eu. Antologia é uma coleção de trabalhos literários, então já podem deduzir o valor de uma reunião de grandes mestres da literatura fantástica por outros também grandes, como Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo. Essa antologia abrange contos de diversos autores, de diferentes lugares e períodos, alguns conhecidíssimos, outros não. É muito bom para quem quer mergulhar a fundo nesse gênero literário e ainda terminar a leitura com um lista de bons nomes e títulos para futuras leituras.


Ortodoxia - G. K. Chesterton (Ecclesiae):
Eu conheço Chesterton dos inúmeros textos que meus amigos e páginas inteligentes do facebook compartilham, e já o amo pelo pouco que li. O que é muito estranho, pois me sinto de certa forma íntima da sua escrita, mesmo sem nunca tê-lo lido, isso levanta uma questão mais estranha ainda: por que, ó raios, nunca comprei um livro de Chesterton?! E antes mesmo da resposta, uma amiga resolve me presentear com esse autor inédito para a minha estante. Ortodoxia é, sem dúvida, uma de suas obras mais conhecidas, e também uma autobiografia da sua trajetória espiritual, além de uma apologia do cristianismo contra as filosofias e doutrinas do início do século XX. Chesterton tem humor, eloquência, inteligência, arte argumentativa, qualidades estas reunidas neste livro, que resgata o núcleo da fé cristã numa sociedade que se encaminhava para sua "superação" - a Europa do séc. XX.


Donnie Darko - Richard Kelly (Darkside):
Isto é algo inédito para mim: um filme que virou livro. Donnie Darko, o clássico filme cult, pode chegar a nós também pelo mágico mundo da leitura. E não, não se trata de uma adaptação do longa-metragem, mas o roteiro original do filme na íntegra, além de um prefácio escrito pelo Jake Gyllenhaal (ator que faz o Donnie, no filme), entrevista com o diretor Kelly, o livro tão citado no filme - "Filosofia da Viagem no Tempo", lista da trilha sonora magnífica do longa, tudo isso recheado de fotinhos do filme e coberto por uma bela capa dura com a imagem do nosso amado coelho Frank. Com isso, para os fãs da história como eu, fica muito mais fácil (ou menos impossível) compreendê-la e até criar as próprias teorias. Para quem não conhece o filme, é uma mistura de ficção científica, suspense, drama e o universo adolescente da década de 80, e conta a história de um garoto problemático que se vê obrigado a seguir ordens de um coelho monstro pois ele o salva da morte e tem a data e hora certa de quando o mundo vai acabar. Cada frase e cena da história é controversa, até mesmo a trilha sonora está diretamente ligada a ela. Então esse livro é muito bom mesmo para quem quer se aprofundar no universo paralelo de Donnie Darko. Eu também tenho minhas teorias, nada muito maduro ainda, mas um dia me arriscarei a tentar desvendar a história, sob a minha ótica, aqui.


Além do Planeta Silencioso - C. S. Lewis (Martins Fontes):
Meu escritor preferido é Lewis, sua mente brilhante me conquistou com As Crônicas de Nárnia, quando mais jovem, e desde então vem me prendendo com sua lógica e escrita impecáveis. Além dos famosos contos de fadas narnianos, C. S. Lewis se destacou na apologética cristã, crítica literária, literatura medieval e ficção científica, gênero este do qual faz parte o livro em questão. Além do Planeta Silencioso é o primeiro livro da famosa Trilogia Cósmica, e conta a história do filólogo Elwin Ransom e seus combates, descobertas e aventuras no planeta Malacandra. Neste livro, Lewis também explora a linguagem, filosofia e religião, com uma maestria que levou a trilogia a ser comparada, no século passado, apenas à trilogia tolkieniana de O Senhor dos Anéis. Ainda não terminei esse leitura, mas não sei se serei capaz de fazer uma resenha sobre, simplesmente porque não vale a pena ler sobre este livro, é preciso ler o livro - já, o quanto antes, agora, imediatamente (me pergunto porque só agora estou lendo).


Então, não resta dúvidas de que eu realmente ganhei pedaços preciosos do céu e espero que, nessas poucas palavras, tenha surgido o interesse de ler esses clássicos. Ainda estou no meio caminho, mas espero escrever mais e melhor sobre alguns deles aqui no blog depois.

A formação clássica da criança na série de filmes Barbie

A criança que fui sempre preferiu brincadeiras caseiras e silenciosas à agitação escandalosa de épocas primaveris. Se isso é bom ou ruim, não sei, mas por esse motivo a minha infância foi repleta de tentativas artísticas: desenhei, dancei, escrevi poesias e desenvolvi até uma novela (sobre mutantes, mas tudo bem). Tudo isso se perdeu aos pouquinhos quando tive que ter como foco o Enem e a universidade. Creio que a fuga das minhas tradições "refinadas", no entanto, se deu pelas consequências disso: eu não tinha mais tempo para apreciar os contos de fadas (embora o gosto nunca tenha se perdido). Enfim, a questão é que as histórias infantis foram a melhor influência do mundo para mim e certamente amplia os horizontes, a facilidade de aprender e compreender, além dos sonhos e aptidões de qualquer criança.

A dificuldade está no acesso das crianças a conteúdos infantis de qualidade, ainda mais se forem clássicos. Muitas vezes, o único contato que temos com isso na infância é por meio dos filmes e desenhos populares, mesmo. Contudo, a maioria deles, pelo menos atualmente, confunde a mente da criança com mensagens politicamente corretas e lições de moral baratas, e o incentivo à virtude é quase nulo. Mas para não desanimarmos, existe até mesmo modismos infantis que servem como uma verdadeira ponte para a literatura, dança e música clássicas. Obviamente, não nego que tem conteúdo de grande valor acessível a crianças, mesmo sofisticados em sua linguagem e tradição; a questão, porém, é que o primeiro contato que se tem com boa arte é por meio de filmes e desenhos mais conhecidos. É aqui onde recebo muitas risadas, mesmo assim ouso dizer: um dos melhores exemplos disso é a série de filmes da Barbie. Não há de se negar o meu gosto por contos de fadas, é algo quase que estampando na minha testa, por isso acredito saber identificar o que é bom, nesse sentido, para as crianças. Isso é fruto da minha experiência no universo infantil e dos impactos dela sobre mim. Sem sombra de dúvidas, o exemplo da Barbie é perfeito para ser a ponte entre o mundo moderno e clássico, como mostrarei mais na frente.

Em contrapartida, a paixão por contos de fadas vem acompanhada de muitos comentários inconvenientes - e ignorantes! - acerca da nossa capacidade de se ater à realidade. Digo isso porque sempre, ainda hoje, ouço muitas risadas por falar tão bem e com tanto carinho da série cinematográfica. Outra coisa também me tocou negativamente: há alguns anos, fui questionada em relação ao meu gosto pela Barbie por ela, supostamente, ser o símbolo da futilidade e da alienação capitalista. Acredito que a pessoa se referia à bonequinha Barbie, pela qual realmente não me interesso nem um pouco (por agora, claro rs), mas isso me fez pensar no quanto as pessoas são tão limitadas quando o assunto é o imaginário.

Muito mais do que futilidade, esse universo "disneyático" trouxe a magia, a virtude e o clássico de uma maneira divertida e singela, por meio da bonequinha mais famosa do mundo. Quando digo isso, estou ignorando toda a produção dos filmes pós-2008, que, a meu ver, fugiu completamente dos roteiros anteriores e tentou, sem êxito, aliar a vida tecnológica/moderna ao mundo fictício e gerar algo produtivo disso. Obviamente, o que as crianças precisam, quando recorrem à ficção, é de algo diferente do que já têm, algo melhor, aí porque esse esforço em fazer uma mistura maluca da realidade e fantasia é inútil. Tá bom, não vou exagerar, depois da minha desilusão com os filmes entre 2008 e 2012, deixei de acompanhar, então não tenho muito o que falar depois disso, dada a minha falta de conhecimento (mas não espero muita coisa, viu?).

Então, resta agora apontar onde exatamente a Barbie serve como elo para a formação clássica da criança, a começar pelo primeiro filme da série cinematográfica animado por computador: Barbie em O Quebra-Nozes. Esse nome já é autoexplicativo para bons entendendores, restando apenas a dúvida: o livro Quebra-Nozes ou o balé Quebra-Nozes? Pois bem, o roteiro foi inspirado nos dois, na obra de Hoffmann, O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos (1816), e no balé de Tchaikovsky, O Quebra-Nozes (1891). Com isso, não resta dúvida de que o longa é recheado de boas referências e, sobretudo, boa música. É pedir demais que crianças apreciem música clássica e coisas afins por conta própria, mas isso pode alcançá-las em animações infantis, tocar suas almas e talvez despertar um gosto mais refinado no futuro. Além disso, o filme fala de gentileza, coragem e beleza interior, e é repleto de romance e fantasia, tornando-se inesquecível para todos os fãs da Barbie, os amantes de balé e música clássica e certamente uma ótima referência para as crianças.


Em seguida, temos o longa Barbie como Rapunzel, inspirado na famosa história dos Irmãos Grimm, Rapunzel (1812). Fora os efeitos para o imaginário que os contos de fadas naturalmente trazem, esse filme tem um toque especial de incetivo à pintura ao mostrar, nele próprio e não somente por meio dele, que às vezes só precisamos de uma boa inspiração para desenvolvermos nosso talento, e a história de Rapunzel serve como essa inspiração para a jovem Kelly, no filme.


A sequência, Barbie: Lago dos Cisnes, é uma inspiração do famoso balé O Lago dos Cisnes (1877), também de Tchaikovsky. Ele conta a história da jovem Odette, destinada a salvar os seres de uma floresta mágica da maldição de um poderoso feiticeiro, mesmo também amaldiçoada a transformar-se em cisne. A salvação foi possível graças ao poder mágico que o verdadeiro amor dela pelo príncipe Daniel trouxe, mediante o seu sacrifício por ele. E tão lindo quanto a história de sacrifício, amor e magia é a coreografia do filme, que mostra muito do balé apresentado nos teatros. Ao som de Tchaikovsky, impossível tudo isso não transcender a alma de uma criança.


Agora, como referência à literatura clássica, temos Barbie em A Princesa e a Plebéia, inspirado na obra-prima de Mark Twain (considerado "o pai da literatura americana"), O Príncipe e o Mendigo (1881). O filme ficou conhecido como o primeiro musical da série cinematográfica. E a sua história nos mostra a importância de fazermos o nosso dever, mesmo nos sentindo, de certa forma, presos, interior ou exteriormente, pois a felicidade não vem com a rebeldia contra os nossos papéis enquanto princesas ou plebéias, mas com a consciência de que somos quem somos. É importante que as crianças entendam isso, para que não se enganem com falsas ideias de liberdade. Enfim, é uma linda história de amor e amizade, recheada de diversão e música.


Se a intenção for apresentar a dança e a literatura de uma só vez à criança, a minha indicação é Barbie em As Doze Princesas Bailarinas. Ele não só apresenta lindos passos de balé, como é baseado no clássico conto de fadas As Doze Princesas Bailarinas (1812), dos Irmãos Grimm. Apesar disso, o filme é bem mais leve que o conto e seu final, mais feliz. Nele, as princesas têm a oportunidade de viverem em um mundo mágico onde todos os seus desejos tornavam-se realidade, mesmo assim, a responsabilidade e a sensatez as chamam de volta. Com dificuldade, conseguem voltar para casa, recuperar seu reino e salvar seu pai, graças ao amor da princesa Genevieve e do sapateiro real Derek e ao poder de sua dança juntos. Nada como uma mágica aventura para alertar as crianças de que os seus sonhos e desejos são importantes e necessários, mas nunca superiores ao amor incondicional que só a realidade nos proporciona.


Encerrando a minha lista de filmes da Barbie inspirados em grandes clássicos na literatura, música e balé, Barbie em A Canção de Natal possui a chave de ouro. Esse é um dos filmes mais inspiradores da série inteira e foi baseado num clássico de ninguém mais, ninguém menos que... Charles Dickens! E o nome da obra dele é também A Canção de Natal. Não é de se esperar que crianças leiam os grandes romancistas ingleses da era vitoriana,  ainda mais o maior deles, mas elas podem alcançar uma adaptação tão perfeita e simples como essa animação cinematográfica. Não é exagero, o longa-metragem ficou extremamente fiel ao livro, em sua essência: pessoas orgulhosas que odeiam o espírito de Natal, mas mudam radicalmente quando se veem diante de um futuro triste e solitário. Por motivos até bobos, desde jovens, ignoramos a máxima de que "é loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou" e passamos a rejeitar momentos de alegria e união como o Natal por alguma má experiência do passado. O filme traz à tona a importância do Natal de Jesus e, sobretudo, a necessidade de sairmos - não só no Natal, mas pelo resto da vida - do estado de avareza e impiedade em que nos encontramos. Assim como Eden Starling, devemos aprender o valor da gentileza e da caridade, de preferência mais cedo que ela. E para completar, o filme está repleto de músicas líricas natalinas, é de tocar o coração.

*Todas as imagens deste post foram retiradas do We Heart It.

Embora eu tenha me apegado mais aos filmes inspirados em histórias clássicas, a série animada eternizou alguns outros também como clássicos da fantasia. Impossível deixar de fora os legítimos contos de fadas da franquia Barbie Fairytopia (Fairytopia, Mermaidia, A Magia do Arco-íris e Butterfly), que, de tanto sucesso, ganhou uma versão no teatro; a dança e magia no filme Barbie em A Magia de Aladus; os lindos musicais de Barbie em A Princesa da Ilha e Barbie e o Castelo de Diamantes (este, meu preferido de todos eles). Até mesmo a versão adolescente da Barbie em O Diário da Barbie deu muito certo, ainda mais com o toque musical.

Como eu disse, meu gosto pela produção dos filmes vai até o ano de 2008. Se existir algo tão bom quanto o que citei aqui depois disso, preciso dessa informação, por favor. No mais, não privem as crianças de terem contato com o universo da Barbie com discursos anticapitalistas e pseudocults, pois elas têm muito o que aprender sobre fantasia, virtude e arte com ele.

O Ocidente pede socorro: por que nos recusamos a ouvir?

Há séculos, a Europa sofria massacres e invasões de povos bárbaros, foi dominada por uma cultura de iniquidade e terror. Sem hesitar, homens corajosos enfrentaram a ira daqueles que invadiam suas terras, estupravam suas mulheres, degolavam seus companheiros e aniquilavam seu povo. Homens considerados pelo sentimentalismo moderno como rudes e insensíveis não suportaram ver os seus sofrerem ameaça e violência e jamais seguiriam suas vidas sabendo que sua civilização ruía perante a barbaridade humana. Hoje, no que acham ser o auge da humanidade humanizadora, nós sequer movemos um dedo diante do verdadeiro ódio e intolerância contra tudo o que nossos antepassados lutaram para construir. O choque não passa de dois minutos. Nossa vida segue. Esquecemos.

Quando se quer ensinar aos humanos o que é humanidade e os que são direitos do homem, mas é incapaz de se sensibilizar de verdade diante do sofrimento alheio, é incapaz de se sacrificar em prol de um bem maior, aí já nos encaminhamos para bem longe da caridade, da bondade, da compaixão e de tudo o que nos faz ser humanos, verdadeiros e dignos humanos. Falam em paz, acusam os discursos de "ódio", gritam por um mundo novo... A ação, porém, não passa de militância e falatório que não chegam a fazer efeito nem nas relações com o próximo ao lado.

É necessário, antes, aprender a abdicar de si mesmo para salvar os irmãos, da morte de corpo e alma. É necessário compreender a situação em que o Ocidente se encontra e o que se está disposto a fazer para mudá-la. É necessário encontrar O caminho para a verdadeira paz. Afinal, onde está a razão de quem prega a paz, mas acha que não se deve lutar por ela?


*Imagem retirada do We Heart It.

Resenha: Elogio da Leitura, de Mario Vargas Llosa

Quão maravilhosas são aquelas leituras que fazemos de um fôlego só! Elogio da Leitura, do peruano Mario Vargas Llosa, é uma delas. Sempre busquei entender por que a literatura é tão importante para mim e por que eu sabia o quanto muitas pessoas estavam perdendo por não apreciá-la. No fundo, eu sempre chegava à conclusão de que, por meio dela, eu entendia a alma humana, mas foi agora, ao término desta leitura, que eu encontrei respostas mais completas aos meios anseios interiores. Sendo amante da literatura ou somente alguém que se questiona qual a razão de se gastar tanto tempo com ela, o pequeno-grande livro do Vargas Llosa pode ser um tesouro para você.

"A leitura transformava os sonhos em vida e a vida em sonhos e colocava o universo da literatura ao alcance do pedacinho de gente que eu era." Essa foi a mesma sensação que eu senti quando, voluntária e conscientemente, decidi ler As Crônicas de Nárnia pela primeira vez. A vida e sonho, como mistura mágica, vão ao encontro dos pequenos por meio da disposição à leitura. Eis por que, desde criança, tal como Llosa e não tanto tal como eu (só comecei a ler com gosto a partir dos 13 anos, infelizmente), é importante passar por isso, não existe melhor fase para unirmos vida e sonho e, assim, desenvolvermos nosso imaginário. 

Tendo consciência disso, Mario não parou na leitura, avançou para a escrita logo cedo e nos releva em sua obra o vício e a maravilha que é escrever: "é criar uma vida paralela onde podemos nos refugiar contra a adversidade, que torna natural o extraordinário e extraordinário o natural, que dissipa o caos, torna belo o feio, eterniza o momento e torna a morte um espetáculo passageiro." Ao escrever, é possível se ir além do além que é ler, pois nós mesmos podemos trazer sonhos à vida e vida aos nossos sonhos, nós mesmos podemos eternizar, transformar e tornar passageira a realidade que nos cerca. Para tanto, Mário precisou de disciplina e paciência, bem como da influência dos grandes mestres, tais como Flaubert, Faulkner, Tolstói, Mann, Orwell e tantos outros, até chegar à magnitude que é a literatura. A lista foi incontável para Llosa e pode ser para qualquer de nós, pois mentes grandiosas na literatura não faltam e eles têm a oferecer o infinito. "Além de me revelarem os segredos do trabalho narrativo, eles me fizeram explorar os abismos do ser humano, admirar suas façanhas e me horrorizar com suas loucuras. Eles foram os amigos mais prestativos, aqueles que alimentaram minha vocação e em cujos livros eu descobri que, mesmo nas piores circunstâncias, há esperança e vale a pena viver, nem que seja porque sem a vida não podemos ler nem imaginar histórias." Se na vida eu só pudesse fazer uma coisa - desfrutar de bons livros -, eu digo com toda a certeza do mundo: ela já valeria muito a pena.

A consciência de que lemos porque esta vida não nos é suficiente é o primeiro passo para compreender a importância disso na nossa vida. Se o que temos aqui não basta, o homem precisa de meios para transcender. "Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos, mais conformistas, menos inquietos e insubmissos, e o espírito crítico, motor do progresso, sequer existiria. Assim como escrever, ler é protestar contra as insuficiências da vida." Foi por meio da literatura que o homem progrediu ao longo dos milênios, foi criando histórias, contando-as e recontando-as que o homem protestou contra o que não lhe era suficiente e, com isso, elevou o nosso padrão de vida, de satisfatoriedade, de conhecimento. Se não impulsionarmos a literatura, a nossa realidade estagna, ficamos conformados com o progresso alcançado e paramos nele. Isso é retroceder, a literatura nos leva além. Ela não se torna inútil quando finalmente atingimos nosso "padrão", este, contudo, muda à medida em que imaginamos e esperamos mais. A literatura é uma forma de sempre irmos além - além da realidade, além da vida, além de nós mesmos.

Por conceber a literatura desse modo, Llosa entende que ela une os homens, independentemente da língua, religião ou ideologia, pois, em qualquer lugar e em qualquer tempo, ela trata do mesmo objeto, a alma humana, e simula a vida bela e perfeita que sonhamos, "aquela que só podemos merecer ao inventá-la, escrevê-la e lê-la". Assim, a literatura é incompatível com a ditadura e extremismos, pois requer crítica e inquietude das pessoas, tudo o que não pode existir para uma tirania perdurar. Isso me fez lembrar de uma distopia incrível de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, em que os livros eram queimados pelo governo e ler, um ato de rebeldia. Bem como é hoje, dada a falta de incetivo à leitura por parte dos meios de influência na sociedade. Voltando ao livro... Llosa compartilha, então, a sua visão de mundo acerca das políticas tiranas que afligiram a humanidade, mais precisamente a América Latina. Mas foi por meio de suas viagens pelo mundo que ele enxergou mais que populismo e problemas sociais em sua terra de origem, percebeu toda a sua riqueza cultural, linguística e o quanto estava progredindo. Com isso, de uma maneira nada nacionalista, mas incrivelmente grata e humilde, ele discorre sobre seu país, o Peru, terra dos seus pais e avós, amigos e amigas, dos seus primeiros passos como gente e escritor, terra da sua esposa. Aos poucos, o Peru vai se tornando essas coisas de fato, ao representar para o autor tudo isso. Mais incrível ainda é a gratidão dele à Espanha. Diferente do que a militância anticolonialista espera, Llosa tem a Espanha como sua segunda nacionalidade, onde cresceu como escritor e acompanhou de perto seus avanços democráticos. Enfim, é de tocar o coração a sua gratidão a todos os lugares que foram morada e inspiração para o que ele é, sonha e escreve.

Ao percorrer as memórias da sua infância e os caminhos da sua vida na leitura, escrita e teatro, Vargas Llosa nos releva nas mais belas palavras o que a literatura é: "Uma representação falsa da vida que, não obstante, nos ajuda a entendê-la melhor, a nos orientarmos pelo labirinto onde nascemos, transcorremos e morremos." Para ele, ela compensa as aflições que a vida traz e nos ajuda a decifrar o sentido da nossa existência.

Ao longo da História, o homem permitiu-se inventar contos, fábulas e mitos que ressoaram pela eternidade e deram origem à civilização, criaram a ciência, a arte e a liberdade; e esse processo ainda continua e permanecerá enquanto houver literatura. "Por isso, deve-se repetir incessantemente às novas gerações, até convencê-las: a ficção é mais do que um entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. É uma necessidade imprescindível para que a civilização continue existindo, renovando-se e conservando em nós o melhor do ser humano. Para que não retrocedamos à barbárie do isolamento e a vida não se reduza ao pragmatismo dos especialistas, que veem as coisas em profundidade mas ignoram o que as rodeia, precede e continua. Para que não passemos de sermos servidos pelas máquinas que inventamos a sermos seus servidores e escravos. E porque um mundo sem literatura seria um mundo sem desejos, nem ideais, nem desacatos, um mundo de autômatos privados do que faz com que o ser humano seja de fato humano: a capacidade de sair de si mesmo e transformar-se em outro, em outros, modelados com a argila de nossos sonhos."

Nada me inquieta mais que a insatisfação com a realidade limitada que temos, por isso a literatura me salva da prisão em que vivemos ao considerar o tangível o bastante. Enquanto vivo neste mundo, sempre estarei insatisfeita: quero além. A literatura é uma válvula de escape desses tormentos, até que alcancemos o que transcende a imaginação humana - a eternidade; mesmo porque ela é, de certa forma, uma pedaço de eternidade aqui na Terra.

"Por isto temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, a maneira mais eficaz que encontramos de aliviar nossa condição mortal, de derrotar a corrosão do tempo e de converter o impossível em possibilidade." Leio porque o mundo não sacia minha sede do que é eterno, leio porque o mundo não abarca os meus sonhos, leio porque o mundo... este mundo não me basta.

Você encontra esta obra nas livrarias Cultura, Saraiva, Travessa e afins.
Tecnologia do Blogger.