Resenha: O sofrimento de uma vida sem sentido, de Viktor Frankl

Conheci o Viktor Frankl por indicação do filósofo Olavo de Carvalho, em 2014. Desde então, planejava estudar e me aprofundar nas suas descobertas, mas só agora criei coragem para enfrentar o desafio de ler psicologia/psicoterapia. Este livro, apesar de ter um teor mais científico, com vários termos que eu não conhecia, é muito interessante e acessível, mas requer uma leitura cuidadosa. Dentre tantas introduções à sua logoterapia, o que me fez de fato amar o Frankl foi seu caminho e dedicação por algo tão presente entre os humanos, mas tão pouco explorado pelos psicólogos em geral: o desespero do vazio existencial.


Neste livro, O sofrimento de uma vida sem sentido, ele deixa claro que cada geração tem sua neurose e, portanto, sua terapia. Há várias décadas, Frankl identificou a falta de sentido como causa de vários distúrbios e problemas, principalmente entre os jovens, o que, ele já havia alertado, veio a piorar com o passar dos anos. Isso faz este um livro muito, extremamente atual. Ainda somos a geração em busca de sentido - e perdida nessa busca. E quando o sofrimento nos aflige, então é que o desespero toma conta de nós. Se já é difícil encontrar o sentido da vida, quanto mais o é encontrar sentido no sofrimento.

Mas a questão é: se buscar compreender o sentido das coisas é/sempre foi algo eminentemente humano, de onde veio esse vazio existencial? O autor oferece a seguinte fórmula: os instintos do homem não lhes dizem o que fazer como nos animais e, diferente de antes, ele não mais tem uma tradição a seguir, por isso os jovens tendem a sofrer mais com isso do que seus avós, por exemplo. Quanto mais perde a tradição (o que Chesterton chama de "democracia dos mortos), mais o homem fica perdido na sua existência e, consequentemente, mais carrega os sintomas de uma neurose noogênica. A partir disso, a logoterapia traz uma conceito muito interessante, o da "vontade do sentido", o que não pode ser definido como um simples desejo do homem de encontrar um sentido, mas antes uma "self-fulfilling prophecy" (profecia autorrealizável). Por ter essa vontade de sentido, mas sofrer de vazio existencial, o homem está perdido e acaba procurando alcançar a felicidade evitando a realização do sentido, eis o porquê de tanto alcoolismo, drogas e criminalidade, por exemplo, e mais, de suicídio. Isso também afeta a sexualidade humana, que está cada vez mais isolada, desvalorizada e desumaninada, contrariando todas as tendências de integração, o que favorece as tendências neurotizantes.

Frankl cita Einstein, afirmando que quem sente que sua vida não tem sentido, não só é infeliz senão também pouco capaz de viver. Por isso, o sentido deve ser encontrado, mas não pode ser produzido, e é isso que os homens têm feito. Então é preciso enxergar que o sentido, além de dever, pode ser encontrado, e é aqui onde entra a consciência, como um órgão do sentido. "A consciência é um dos fenômenos mais especificamente humanos; mas não apenas humano. É também demasiadamente humano, e de tal maneira que participa da condition humaine, e portanto é marcada por sua finitude. Só assim se compreende como a consciência pode, às vezes, enganar-se e também desviar o homem. Mais do que isso: até o derradeiro momento, até o último suspiro, o homem não sabe se realmente cumpriu o sentido da vida ou antes somente acreditou tê-lo cumprido: ignoramus et ignorabimus." Não basta que ouçamos nossa consciência, mas que ela esteja direcionada para o que deve ser encontrado, senão o homem se deixará enganar pela própria consciência. Para isso, ele precisa de humildade e responsabilidade.

Numa época em que as pessoas objetivam o seu bem-estar social acima de tudo, não é de se estranhar que sofram de falta de sentido, pois isso (bem-estar) é apenas um meio de vida, mas o que interessa é o objetivo da vida. Temos o suficiente para viver, mas de que adianta se não soubemos para que viver? É cumprindo um sentido que o homem realiza a si mesmo, ainda que esse sentido esteja no sofrimento. Para entender melhor, Viktor Frankl traz as palavras de Yehuda Bacon sobre que sentido poderiam ter os anos em que se passara em Auschwitz: "Quando rapaz, pensava: vou contar ao mundo o que vi em Auschwitz - na esperança de que o mundo se tornasse outro. Mas o mundo não mudou, e o mundo nada quis ouvir sobre Auschwitz. Só muito mais tarde compreendi verdadeiramente qual é o sentido do sofrimento. O sofrimento tem um sentido quando tu mesmo tornas-te outro." Mais exato impossível, não é?

A partir disso, o psiquiatra propõe uma reumanização da psicoteparia, mostrando que não vivemos mais em uma época de frustração sexual, como na de Freud, nem de sentimento de inferioridade, como na de Adler; e os arquétipos de Jung não mais podem ser considerados a única forma de proporcionar à vida seu sentido. É necessário uma nova terapia para essa geração do vazio existencial, e é aqui onde entra a logoterapia. Não vou me arriscar a explicar como funciona, melhor que o mestre o faça (por isso indico a leitura para já), mas posso adiantar que essa terapia tem duas técnicas muito interessantes e eficazes - com base nos casos apresentados no livro: a intenção paradoxal e a derreflexão. A primeira orienta o paciente a enfrentar aquilo que tanto teme, logo, a desejá-lo paradoxalmente ou a aceitá-lo  antecipadamente, pois muitas neuroses partem do medo de sentir medo por conta de alguma obsessão, por exemplo. E a segunda consiste em se substituir à hiperreflexão patogênica, pois o homem está muito focado na luta pelo prazer, forçando a si mesmo a isso, em vez que buscar outra coisa e deixar que o prazer venha como consequência, o que é o fim para a espontaneidade e o início de inúmeros distúrbios relacionados à sexualidade. Resumindo: se você tem um medo patológico de sair de casa e entrar numa crise de ansiedade, o faça intencionalmente já predisposto a aceitar isso de que tem medo (intenção paradoxal); e se você não consegue praticar um ato sexual porque está muito obcecado em conseguir isso, pode se "forçar" a não conseguir de fato ou mesmo a não praticar até se ver livre da impotência, por exemplo (derreflexão). Não funciona exatamente assim (risos) e deve ser feito com auxílio do logoterapeuta, que te guiará de acordo com o seu problema e segundo um tratamento mais específico, mas os exemplos são apenas para visualizar melhor, ainda que não perfeitamente, como funciona. O livro mostra vários casos de pacientes com diferentes problemas e como foram libertos através da logoterapia.

*Viktor Frankl.

Agora voltando ao foco da psicoterapia de Viktor Frankl: a vontade do sentido. Ele explica que esta deve estar guiada para um motivo que te levará a um efeito; assim sendo, a vontade de sentido é o meio que levará a um fim que é diferente do efeito. Então, o homem se realiza ao alcançar esse motivo/fim/sentido, e muitos sofrem da falta disso porque focam sua vontade no efeito, que deveria ser consequência de algo que só se encontra com a vontade direcionada para um sentido antes de tudo. Aqui entra também os conceitos de vontade de prazer e vontade de poder de Freud e Adler, que Frankl demonstra que só se formam quando é frustrada a vontade de sentido. Reiterando: vivemos em uma época de frustração existencial, não sexual ou de poder, pois o homem só se autorrealiza à medida que cumpre um sentido. E este é um dos objetivos mais nobres da logoterapia: reorientar o homem para o sentido, pois este é o grande anseio humano, e é justamente por não ser patológico que deve ser mobilizado terapeuticamente.

Mas como mostrar o sentido da vida para aqueles que sofrem, e mais, sofrem de doenças incuráveis? Este é outro nobre objetivo da logoterapia: mostrar que até mesmo o seu sofrimento tem sentido, ou seja, você pode se realizar naquilo que necessariamente te faz sofrer. Veja, ele não fala aqui de um sofrimento desnecessário, você não deve ficar buscando o sofrimento, pois isso é uma desgraça "ordinária" e não uma "nobre" infelicidade. Frankl afirma que o homo sapiens se articula no homo faber (que cumpre o sentido existencial ao criar), no homo amans (que enriquece o sentido ao experimentar, encontrar o outro e amar) e no homo patiens (que sofre e rende serviço ao sofrimento). Enquanto o primeiro só enxerga o sucesso ou o fracasso; o segundo, apenas a realização ou o desespero. Assim, neste último, ou o homem alcança a realização no sofrimento, buscando - e encontrando - o seu sentido, ou se desespera - e padece. O livro mostra como essa maneira de enxergar pode salvar até quem se encontra no fundo do poço, como os perigosos presidiários da penitenciária da Flórida, que passaram a enxergar o sentido da vida na prisão, com o auxílio da logoterapia, e isso lhes deu a consciência de que bastava esperar para ter a oportunidade de reparar tudo o que fez e tornar-se melhor.

Por mais que o livro não traga esta informação, acho importante ressaltar que Viktor Frankl sabe do que fala quando afirma que há sentido no sofrimento, pois a sua história de vida é repleta disso. Os nazistas obrigaram sua mulher a abortar seu filho; ele foi levado, junto com a esposa, mãe e irmão para Auschwitz para serem executados; quando ele é liberado de lá pelas tropas norte-americanas, descobre que os três foram assassinados. E foi nos campos de concentração, mesmo sob condições terríveis, que Frankl encontrou sua tese central sobre o sentido da vida e a psicologia humana. Foi no sofrimento que ele encontrou o sentido da vida e dedicou-se até o fim dela a ajudar os outros a encontrar também.

Como a logoterapia trata de assuntos transcendentais, é até lógico que ela está bem ligada à vida espiritual, não é? Por isso a religião pode ser um objeto para a logoterapia. "Um homem que encontra uma resposta à questão  do sentido da vida é um homem religioso" (Einstein). Até mesmo um suicida crê num sentido, senão da vida, mas ao menos da morte. Se assim não fosse, não encontraria força sequer para mover um dedo, muito menos para se suicidar. Frankl encerra o livro contando um caso específico de um senhor de sessenta anos de idade que apresentava traços de esquizofrenia, mas permanecia com a sua humanidade intacta, que o tornava capaz de dominar-se, no último momento de sua deficiência. Então o psiquiatra lhe pergunta: "'Afinal de contas, por amor a quem o senhor se domina?' E ele me respondeu: 'Por amor a Deus...". Vieram-me então à mente as palavras de Kierkegaard: 'Mesmo se a loucura me surgisse aos olhos em seu traje de bufão, sempre posso salvar a minha alma, se triunfa em mim o meu amor para com Deus.'"

O livro ainda traz um anexo sobre o que diz o psiquiatra acerca da literatura moderna. Aqui, ele mostra como a literatura pode exercer uma função terapêutica, mas jamais deve cair no erro de superestimar, ou idolatrar, a psiquiatria. Se um livro tem capacidade de influenciar no caminho de uma pessoa, os escritores precisam estar conscientes da sua responsabilidade social, e esta deve estar acima da liberdade de expressão, pois a liberdade vira arbitrariedade se não for vivida com responsabilidade.

Há tempos eu não me sentia tão fortalecida! A esperança de uma psicologia voltada para a busca do sentido me dá ânimo de sonhar com uma geração menos vazia, mais consciente e responsável, psicológica e espiritualmente saudável. Creio que a chave para isso está na palavra: compreensão. Compreender a ti mesmo, conhecer a si mesmo e, com isso, encontrar o sentido da sua vida. E assim, encerro deixando este excerto do Hermann Hesse:

A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um — resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial — tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.” (Demian)

Hamlet meditando diante da caveira de Yorick. "Young Man with a Skull", de Frans Hals.



Você pode encontrar esta obra aqui e aqui (preço de black friday, viu???). ❤

Gilmore Girls e o triste retrato da mulher moderna

Depois de alguns meses, retorno ao blog para falar de uma das minhas séries preferidas no mundo inteiro, e, para não perder o costume, criticar o mundo moderno (rs). Perdoem-me pela ausência, prometo me esforçar mais para seguir com o blog. Boa leitura, galerinha!

Os anos 2000 estrearam nos presenteando com uma série especialmente querida por todos: Gilmore Girls; que, ao longo de quase sete anos, divertiu muitas pessoas com o relacionamento pitoresco das mãe e filha Lorelai e Rory Gilmore. Se você assistia ao SBT no início deste século, deve se lembrar da sintonia incrível dessas duas em "Tal mãe, tal filha" (como ficou conhecida no Brasil). Em geral, a série fala sobre relacionamentos, entre familiares, amigos e amantes, sempre abusando nos diálogos bem rápidos e nas referências a diversos ícones e temas da cultura pop. E especificamente, retrata o dia-a-dia da mãe solteira Lorelai Gilmore e sua filha Rory, de 16 anos. Acompanhamos toda a trajetória dessas duas em busca do sonho de Rory estudar numa boa escola particular a chegar à tão sonhada universidade.



 
*Imagens retiradas do Pinterest.

A série é ambientada na pequena cidade de Stars Hollow, em Connecticut, onde mostra a relação das protagonistas com as outras personagens bem hilárias da história. Também temos cenas na escola e universidade de Rory e na casa de seus avós, que são fora da cidade. Aqui, já percebemos duas coisas: a série explora (de maneira caricata, claro) as características típicas de cidade pequena, como o senso de comunidade e o famoso "bisbilhotar a vida alheia" (conheço muito bem pois moro no interior do interior do Piauí), e também as relações de classe, pois os pais de Lorelai são da alta sociedade e tanto a escola quanto a universidade de Rory são de gente, digamos, rica. Por rejeitar este segundo ambiente, Lorelai decidiu abandonar a alta sociedade quando engravidou, aos 16 anos, e recomeçar a vida em Stars Hollow. E agora chegarei ao meu ponto.

A rejeição de Lorelai à classe alta era tão grande que ela não só abandonou a riqueza para conquistar algo por conta própria, mas abandonou seus pais, pois era de onde brotava, para ela, todas as pressões que tanto a prendiam e sufocavam. E assim, manteve Rory longe de tudo isso, até que precisou de dinheiro para bancar os estudos da filha e teve que recorrer a quem? À maldita burguesia, quer dizer, a seus pais, Richard e Emily Gilmore. Foi quando a relação entre eles voltou a se estreitar e começou a série.

Como típicos representantes da alta sociedade, Richard e Emily sempre foram preocupados com certas tradições, participar de eventos sociais e, como era de se esperar, quando Lorelai engravidou, quiseram o casamento entre ela e o namoradinho Christopher. Rebelde como era, é claro que ela se recusou prontamente, até chegar à decisão de abandonar todos para criar sua filha sozinha. Com o passar dos episódios, percebemos que rejeitar o casamento naquela idade, com alguém imaturo e irresponsável como Christopher, não foi das piores decisões de Lorelai, mas os motivos pelos quais ela o fez e a radicalidade de sua conduta perante os pais é algo que só causa admiração nas mentes como a dela: liberais.

Não quero entrar no mérito ideológico, pelo amor de Deus, mas não tenho culpa se a série respira o modo de pensar progressista (o que não é de se estranhar, pois: anos 2000, baby), então todos os diálogos e conflitos se desencadeiam para a defesa de uma linha de pensamento e modo de viver. Lorelai é o retrato da mulher moderna: subversiva. Subversiva à sociedade que lhe exige satisfação, a responsabilidades que lhe pedem obediência e a situações que a deixem impotente. Um exemplo: quando deu a luz a Rory, Lorelai quis dar seu nome a ela, não como uma homenagem, que é o que ocorre noutros casos, mas porque são homens que costumam receber o nome dos pais, avós ou bisavós, e ela queria de alguma forma de "rebelar" contra essa convenção social tão inocente quanto inútil. Tudo bem, ela tinha dezesseis anos na época, todo adolescente quer bancar o diferentão. Percebemos o problema quando a pessoa mantém os hábitos rebeldes e inconstantes de quando era jovem, e esse é o mal do homem do século XXI, ele vive numa síndrome da adolescência eterna.

Posso apontar outro exemplo que vejo como um dos maiores e reiterados erros de Lorelai: o desprezo por sua mãe. O pior dela não foi exatamente ter abandonado os pais, afinal, ela era uma garota no tempo; o que é difícil suportar é o fato dela nunca, em nenhum momento sequer, ter se arrependido ou se lamentado de verdade pelo sofrimento que Emily passou durante tudo isso. Não falo de se arrepender de ter criado Rory naquela cidade, pois é difícil repensar na vida quando esta parece ter sido melhor do que a alternativa, digo se arrepender por certas escolhas que a fizeram afastar pessoas importantes que não mereciam aquilo, apesar dos erros. E se você prestar atenção, uma coisa interessante fica subentendida na série: o motivo da rejeição de Lorelai em relação à mãe é muito mais pelo estilo de vida que esta escolheu do que pelos erros cometidos por ela, até porque estes quase sempre decorriam daquele.


Mas onde mais fica evidente a síndrome da adolescência de Lorelai é sua relação com os homens. A inconstância é tão grande que ela fica na defensiva, depois quer casar, depois termina, depois volta, depois começa a se sabotar... É como se fosse impossível ter algo bom sem achar uma forma de destruir. Tudo o que ela queria e precisava sempre esteve diante de seus olhos, mas ela levou a série inteira para perceber isso e ainda teve o seu "happy ending" somente pela metade por insegurança de seguir em frente com um compromisso. A série deixa bem claro o seu problema em relação a homens e deixa mais claro ainda como isso influenciou sua filha. A garota doce e responsável que Rory era aos 16 anos transformou-se numa mulher cujo único objetivo de vida era crescer na carreira, incapaz de criar laços mais profundos sem machucar quem estava em volta, inconstante e insegura que nem a mãe. Isso só vamos perceber bem no revival feito pela Netflix em 2016, o qual trouxe mais quatro episódios para matarmos a saudade das garotas Gilmore e descobrirmos como todos estavam dez anos depois. A vida que Rory levava era triste e vazia: sem lar, sem romance e depois sem emprego. Este é o problema de transformar a carreira de cereja do bolo para o bolo inteiro: quando algo não dá certo nela, o que resta são as relações que poderíamos ter cultivado e não o fizemos.

No episódio dez da sétima temporada, Emily surpreende Lorelai com um discurso que foi um tapa na cara não só para ela, mas para muitas de nós, nascidas sob o manto do individualismo:

Emily: Christopher é imaturo, bobo às vezes e peca um pouco pela falta de bom senso. Ele nem sempre faz as melhores escolhas. 
Lorelai: Tipo comigo? Esta dizendo que ele errou em me escolher? 
E: Estou dizendo que ele é seu marido, Lorelai. Para o bem e para o mal. Eu gosto do Christopher. 
L: Ok. 
E: Acho que ele é bom para você. Mas não vai ser perfeito. Ele não é perfeito e Deus sabe que você não é perfeita. Mas o casamento não é estar feliz sempre e, frequentemente, é não estar feliz de jeito nenhum. Tem a ver com concessões, que não é o seu ponto forte. O casamento tem a ver com engolirmos o orgulho, às vezes, fazer o que o outro quer. Não é ganhar uma discussão, o que pode te entristecer, porque é disso que gosta, mas não quero ver você estragar tudo. Casamento é sério, Lorelai, e se não levar muito a sério, então, tudo pode se acabar antes que imagine. Ele vai embora e você vai estar sozinha de novo. Um anel não é garantia.

Lorelai e Rory não são contraexemplos por serem democratas, levemente feministas e buscarem a independência acima de tudo. Pelo contrário, embora reprováveis em muitos aspectos, tornaram-se mulheres fortes, que sabem lidar com algumas dificuldades da vida com graça e empatia. O que as tornam o contrário do que devemos ser é a incapacidade de sair de si mesmas e olharem além. O que fez Rory abandonar a faculdade por um ano? Envolver-se com um homem casado? Trair? Desrespeitar a mãe e os avós? Deixar de casar com alguém para tornar-se sua amante no futuro? O que fez Lorelai marcar e desmarcar casamentos umas três vezes? Optar por não falar com a filha a ter que lhe dar uma ordem/proibição? Casar com alguém com quem ela sabia não ter futuro? Adiar a felicidade com o "cara certo" incontáveis vezes? Enxergar os pais - maravilhosos, por sinal - como as piores pessoas do mundo por ostentarem um status social, para muitos, privilegiado?

São erros, vocês responderão, dos quais todos nós estamos passíveis. Mas eu digo: são erros que se repetem, constantemente e sem que se admita culpa, por toda uma geração, a nossa. Somos a era que tem medo de seguir os costumes e compromissos dos que vieram antes de nós, mas que não hesita em seguir os impulsos, mesmo que estes resultem em compromisso posterior. A questão é: o quanto estamos dispostos a assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas? Será que a felicidade é tão difícil quanto parece ou nós a dificultamos por não percebê-la e agarrá-la nas tempestades? A doença da nossa geração é ter a felicidade como objetivo de vida e esquecer-se de como viver. "A diferença entre o 'é claro que quero ser feliz' e a busca séria pela felicidade é sutil. Mas entendê-la é absolutamente crucial" (Elizabeth Kantor).

Enfim, apesar de ser claramente progressista, Gilmore Girls é eficiente no papel de mostrar a sociedade moderna tal qual ela é: encantadora e decadente. Por isso gosto de verdade da série, ainda que com ressalvas. Para uma série de comédia e cheia de caricaturas, ela é bem realista e nos faz pensar sobre quem somos. Afinal, é esse tipo de gente que queremos ser, são essas relações que queremos construir ou podemos ter mais, mesmo que esse mais signifique dar a meia volta e seguir outro caminho? Quase sempre, é assim que há crescimento - enxergar o erro e saber quando e como voltar atrás, fazer diferente. Os erros de uma geração são precisam ser os nossos erros.





PS: Sei que não parece, mas amo as garotas Gilmore e me emocionei até o último episódio com as trapalhadas dessas maluquinhas, haha


Resenha: Árvore e Folha, de Tolkien

Existe alguém melhor para falar sobre contos de fadas do que o mestre J. R. R. Tolkien? Pois bem, neste pequeno livro, chamado Árvore e Folha, ele discorre sobre a natureza, origem e funções dos contos de fadas, em um ensaio bem complexo, apesar de curto. Além disso, essa edição da Martins Fontes traz o conto "Folha, de Migalha", que segue o exato modelo proposto por Tolkien no ensaio.

Que capa maravilhosa, gente!

O ensaio "Sobre contos de fadas" gira em torno de três perguntas: 1. O que são contos de fadas? 2. Qual a sua origem? 3. E quais os valores e as funções deles? A princípio, o autor desmistifica muito do que se diz a respeito, e percorremos juntos dele um caminho lógico e brilhante para a compreensão de que contos de fadas não são histórias sobre fadas. Na verdade, há uma confusão sobre esse termo devido ao erro de tradução da palavra faierie (Faërie), que significa Reino Encantado, não fadas. Então contos de fadas não seriam histórias de duendes e criaturas minúsculas entre arbustos, mas uma história que se passa no Reino Encantado, onde é possível a existência desses seres (fadas e elfos). As histórias que relatam sonhos e coisas afins também divergem muito da Fantasia propriamente dita, pois esta é uma arte racional, não irracional, eis por que as histórias de Lewis Caroll não são contos de fadas, as fábulas de animais também não o são. Todas essas histórias sobre seres diminutos, sonhos e animais são encantadas e ficcionais, mas, para ser conto de fadas, é preciso que toda a magia seja real naquele contexto.

Tolkien também explica por que essas histórias não deveriam ser especialmente associados às crianças. É certo que ter o coração de uma criança é necessário para entrar no Reino Encantado, mas isso significa ter humildade e inocência. Não significa ausência de crítica, mas possuir aquele espírito infantil que, como disse Chesterton, é inocente e ama a justiça, ao passo que a maioria de nós é malvada e naturalmente prefere a misericórdia. O ponto não é que adultos são malvadões e crianças devem viver numa eterna síndrome de Peter Pan, mas sim que crianças devem crescer e os contos de fadas podem ensinar-lhes uma ótima lição: "que, à juventude imatura, indolente e egoísta, o perigo, o pesar e a sombra da morte podem conferir dignidade e às vezes até sabedoria." Isso é importante para o crescimento, mas os maiores valores que o Reino Encantado pode trazer são coisas de que os adultos precisam ainda mais que as crianças: Fantasia, Recuperação, Escape e Consolo.

"Numa toca no chão vivia um hobbit..." O Hobbit, J.R.R. Tolkien

O livro nos mostra que a Fantasia é a atividade humana natural. Que enquanto há humanidade e, consequentemente, Razão, melhor será a fantasia produzida. E se chegarmos ao ponto da nossa busca pela Verdade definhar, a fantasia pereceria com ela. Além disso, ela é uma forma superior de arte, a mais próxima da forma pura, e por isso (quando alcançada) a mais potente. Acima de tudo, a Fantasia é um direito nosso, e isso remete também à sua origem (que não pode ser traçada precisamente), pois ela existe como reflexo do reflexo de Deus no homem. Se somos feitos à imagem e semelhança de um Criador, nós subcriamos. Por isso a Fantasia segue o padrão evangellium de: criação, queda e redenção (eis a origem dos finais felizes). Assim, os contos de fadas têm uma função bem parecida com a do Evangelho: suscitam escape da Morte e o consolo do Final Feliz (uma alegria que não é escapista nem fugitiva).

A conclusão a que Tolkien chega é belíssima e vocês precisarão ler para sentir a mesma emoção, senão perde a graça do livro, mas posso dizer que tem muito mais dessa ligação entre a Fantasia e o Evangelho. Temos aqui um livro com todas as chaves para desvendarmos o mistério dos contos de fadas, mas que deixa uma lacuna que só nós mesmos, com o uso da nossa cabecinha, podemos preencher. É o que ocorre com o conto que sucede ao ensaio: se entendermos bem este, o porquê daquele conto estar ali fará todo o sentido. Inclusive o Folha é considerado a única narrativa escrita por Tolkien que contém uma alegoria à sua própria vida. Sem contar a correlação entre os nomes Árvore e Folha, que, quando nos tocamos dela, vem aquele sentimento de "aaaahhhhh" (vocês entendem, né? haha). Por fim, deixo esta carta de Tolkien para um homem que descreveu o mito e o conto de fadas como "mentiras":

"Meu caro,
Embora alheado, 
o Homem não é perdido nem mudado.
Sem graça sim, porém não sem seu trono, 
tem restos do poder de que foi dono:
Subcriador, o que a luz desata
e de um só Branco cores mil refrata
que se combinam, variações viventes
e formas que se movem entre as mentes.
Se deste mundo as frestas ocupamos
com Elfos e Duendes, se criamos
Deuses, seus lares, treva e luz do dia, 
dragões e plantamos - nossa é a regalia
(boa ou má). Não morre esse direito:
eu faço pela lei na qual sou feito."

Que a fantasia não morra, porque a existência humana está atrelada a ela e, por consequência, a nossa redenção, enquanto seres na Terra e enquanto seres do Céu.

O clássico conto de fadas Branca de Neve (Schneewittchen), dos irmãos Grimm,




Você pode encontrar esta obra aqui, assim como na livraria Travessa e na Estante Virtual (corram, porque está esgotando em tudo que é canto).

Resenha: Anna Kariênina, de Liev Tolstói

"Toda as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira." Esse é um dos começos mais famosos da história da literatura, e é assim que dá início um dos maiores e mais apreciados romances de todos os tempos: Anna Kariênina, do russo Liev Tolstói. Ouso dizer que este livro é até melhor que outra obra-prima do autor, Guerra e paz, não sei se pelas personagens serem mais atrativas ou mesmo as tramas me prenderem mais. De toda forma, é certeza que qualquer amante de boa literatura se apaixonará por este livro.


Anna Kariênina se passa na Rússia do século XIX e é basicamente um romance sobre a sociedade russa da época, os estilos de vida de seus cidadãos, na cidade e no campo, e trata de assuntos como família, fé, desejos, hipocrisia, fidelidade... Eu não contarei a história passo a passo, por motivos óbvios, mas deixarei uma pequena síntese aqui, para ficar mais claro o que escreverei depois: o livro gira em torno de dois centros principais, o do personagem Liévin e o de Anna Kariênina, mas ambos estão relacionados e constantemente se encontram e misturam-se. Liévin é um proprietário de terras apaixonado por Kitty, irmã de Dolly, que é esposa do irmão de Anna. O livro leva o nome desta pois retrata muito o caso extraconjugal (sem meias-palavras, o adultério) entre ela e Vrónski, mas Liévin é evidentemente mais significativo, não só para o livro, mas também fora dele, considerado um dos personagens mais importantes da história da literatura.

A partir disso, focarei primeiramente no centro de Anna, para falar de algo que, para mim, protagoniza todo o drama dela: o salário do pecado. Antes de ler a obra, imaginei Anna Kariênina como uma personagem desprezível, tal como Emma Bovary (Madame Bovary, Gustave Flaubert). Engano meu. Anna era uma amor de pessoa, encantava todos que a conheciam, pois tinha um bom coração e falava de maneira natural, inteligente e despretensiosa; não era desprezível, tornou-se. Ela casou nova, com um funcionário público muito importante e bem mais velho, Aleksiei Aleksándrovich, e com ele teve um filho, Serioja. Aleksiei tinha um jeito muito arrogante de falar, o que irritava a esposa. Esta nunca foi um mulher apaixonada pelo marido, mas ao se apaixonar por outro homem, os defeitos antes toleráveis do esposo tornaram-se motivo de repugnância para Anna, a ponto de desprezá-lo.

Seu amante Vrónski a conquistou com um gesto de caridade em um acidente de trem que eles presenciaram juntos (apesar de tê-lo feito apenas para impressioná-la). Imaginem um ser que defendia o "deixar-se levar pelos desejos sem pudor", com um falso amor pela verdade e orgulho pela própria falta de moralidade, este era Vrónski. Mesmo querido por - quase - todos, mesmo apaixonante até certo ponto, mesmo responsável, a sua falta de escrúpulos não permite que o leitor sensato o suporte. Mas Kariênina apaixonou-se perdidamente, e foi recíproco. De início, ela relutou, tinha que pensar no casamento, no filho, na sociedade, o que nunca foi objeto de reflexão por parte de Vrónski. Para ele, "aprisionar-se" a essas coisas seria viver uma mentira (eis por que listei o falso amor pela verdade no rol de seus defeitos).

Quando fazemos algo errado, muitas vezes tentamos manipular a nossa consciência para nos sentirmos melhores. Assim também Anna criou mecanismos de defesa contra o marido e a própria consciência, tudo para não se sentir culpada pela situação. Com o tempo, tornou-se cada vez mais infeliz. Por pressão do marido, da sociedade, do amante? Pela falta do filho? Ainda que ela amasse de verdade o filho, deixá-lo foi uma escolha, ela não podia ter os dois. E no fundo ela sabia disso. Não, o que a deixava infeliz era a voz da consciência. E não compreender isso foi a sua perdição.

Seu imediatismo também a fez passar por situações humilhantes na sociedade. Claro que havia muita hipocrisia nesta, mas a insensatez de Anna não ajudou nem um pouco. Até Vrónski era um pouco mais sensato que ela sobre a real situação deles na sociedade. Mesmo assim, o quadro deles melhorou aos poucos, recebiam visitas de amigos/parentes queridos, tudo se encaminhava para o que Anna queria. Mas a felicidade não veio com isso. Pelo contrário, ela tornou-se cada vez mais egoísta, sentia compaixão por si mesma. Tudo estava se encaixando, mas os delírios de ciúme surgiram apesar disso, ela chegou à quase loucura, tudo por conta da consciência pesada. Afinal, não havia outra explicação para suas atitudes, ela já nem sabia mais o que queria.

Diante de situação, o seu esposo Aleksiei revelou-se alguém muito piedoso perante o sofrimento alheio. Por mais dor que sentisse, mesmo tentando esconder, ele ainda se compadecia por Anna. Sua evolução como homem e cristão é evidente. Dolly teve uma forte influência sobre ele ao falar de perdão, o que se contrapôs à influência negativa de uma certa amiga. Não sei se ficou claro para todos os leitores, mas para mim a Lídia era mesquinha e dar ouvidos demais a ela era um erro. De todo modo, de maneira geral, a conduta de Aleksiei foi admirável. Muitos o condenam por não abrir mão do filho, o que causou muito sofrimento a Anna, mas era direito dele, enquanto vítima da traição, ficar com a criança. Foi uma escolha acertada. Se Serioja tivesse ido com a mãe, sofreria mais, pois enfrentaria todos aqueles desvarios e acabaria como sua irmã, preterido.

Chegou ao ponto em que Anna tornou-se incapaz de amar, até mesmo os fortes sentimentos que nutria por Vrónski não passavam de paixão desregrada, que a cegava em relação a tudo que deveria ocupar o centro da sua vida, como a sua filha (já que o filho havia perdido). Ela revelou um lado novo: acreditava conquistar a todos com a sua boa aparência. Ela era linda, todos os homens a desejavam e todas as mulheres deveriam ter ciúme dela, por isso Vrónski deveria ser grato, embora não estivesse agindo conforme a sorte grande que levou. Estava delirando.

Keira Knightley interpreta Anna Kariênina no filme homônimo de Joe Wright, em 2012.

Diferente do que falam, Anna Kariênina não é uma mulher forte. Ela se deixa levar pelas vontades, cria malabarismos para enganar a própria consciência e não tem controle emocional. É uma mulher fraca, com certeza, pois fazer somente o que ela quer não é sinal de força, pelo contrário. Deixar-se levar pelos desejos passionais é negativo, apesar da insistência dos leitores de Tolstói em afirmar o contrário. Se alguém como Anna (ou Emma Bovary, ou Marcela) é símbolo feminista, fazemos bem em querer distância disso. Essa falsa satisfação de fazer exatamente o que tem vontade, sem pensar nos demais ou nas consequências, pode até mascarar a intensa tristeza por trás disso, mas não engana quem tem visão de vida eterna.

Para bons entendedores, o salário do pecado é a morte, não é? Mas calma, isso não é spoiler, basta um pouco de conhecimento bíblico aplicado ao universo literário que vocês compreenderão melhor. Anna se perdeu nos seus erros, até que chegou a um caminho sem volta que só restou para ela dizer: "Deus, perdoe-me tudo!" Não conhecemos o que se passou pelo coração de Anna, nem mesmo a sinceridade do seu arrependimento, mas uma coisa certa é que sua historia diz muito sobre os frutos da queda. Este foi o salário do pecado de Kariênina: a sua ruína enquanto pessoa.

Agora vamos conversar sobre um dos mocinhos mais incríveis da literatura: Liévin. Se por um lado temos a decadência de Anna, pelo outro temos a transcendência de Liévin. Ele não era um herói perfeito, nem na aparência nem na personalidade, os conflitos interiores que ele vive ao longo do livro faz com que não só o tomemos como exemplo, mas nos enxerguemos nele. Liévin é gente como a gente. E todo aquele que já parou para refletir sobre o sentido da vida se identificará com ele.

As suas opiniões únicas o destacavam em qualquer discussão, inclusive seus diálogos eram de dar inveja, pois citava Platão e Dickens com tamanha naturalidade que a gente pensa: por que na minha vida eu não converso assim? Sem contar a visão crítica e sábia que ele tinha sobre a vida, Evangelho, casamento, o campo. Mesmo nobre, ele tinha consciência social, sem se aproximar dos ideais comunistas. Mesmo sem fé, ele entendia mais de cristianismo que a maioria das personagens hipócritas e torpes do livro. Sua disposição de doar-se aos outros mostra o quão importante o sacrifício é para a felicidade na família. Kitty foi agraciada, e ao longo da história percebemos o quanto ela tomou consciência disso. A única parte do livro que pode causar um certo cansaço são as longas descrições sobre a vida no campo e agricultura, paixões de Liévin, mas ainda é prazeroso, porque é necessário. Esse contraste entre a vida na cidade e no campo foi essencial para entendermos de fato como funcionava a Rússia na época. Se você não gostar dessas partes, tenha paciência e continue a leitura. Valerá a pena no final.

Com Liévin, percorremos o caminho até a profissão de fé, o que só foi possível com uma fé já enraizada, ainda que esquecida, dentro dele. Sua luta espiritual é perturbadora, mas a conclusão a que ele chegou foi causa de um dos finais mais arrepiantes, belos e verdadeiros que já li. Liévin finalmente compreendeu.

Ao fim do livro, sinto a obrigação de discordar de Tolstói naquela frase que inicia a história. As famílias infelizes de Anna Kariênina padecem todas no desespero da culpa e da desconfiança. São todas iguais no sofrimento. Já a família de Liévin é incomparável no seu esplendor. Todos têm anseio de encontrar alegria e satisfação, e os modos de fazê-lo variam. Quando nosso objeto de devoção, de esperança e/ou de amor é alcançado, o impacto em cada um é diferente, proporcionando-nos uma felicidade única. Cada família feliz é feliz à sua maneira. E isso me lembra muito uma frase de C.S. Lewis: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a diferença dos santos!" Ser bom é o que nos faz diferentes uns dos outros, os maus são todos iguais.

Com Anna Kariênina, Tolstói entrou para o meu Top 3 de escritores favoritos. Ainda que sua vida estivesse afundada em ideologias condenáveis, a grandiosidade da sua obra é digna da mais sincera admiração. O paradoxo do comunismo e cristianismo unidos em sua mente ensejou a criação de romances inexplicavelmente coerentes. Não se assustem com os temas pesados de traição, morte e pecado, muito menos com as horríveis personagens que compõem a obra, pois como escreveu Ruy Castro na sua biografia de Nelson Rodrigues: "a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No ‘Crime e Castigo’, Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto, e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los."



Essa minha edição belíssima é da falecida Cosac Naify. Todo o seu estoque foi vendido para a livraria virtual Amazon, mas atualmente este livro está indisponível. É sinal de que está acabando. Não percam essa edição, a tradução é bem prestigiada, então corram aos sebos e fiquem atentos às livrarias.

Resenha: Guia politicamente incorreto da Literatura, de Elizabeth Kantor

Quanto tempo, meus amigos, estava com saudades! Retorno ao blog hoje com uma indicação maravilhosa: o Guia politicamente incorreto da Literatura, da incrível Elizabeth Kantor. Essa autora escreve muito bem, sobre coisas muitos importantes e de maneira divertidíssima. Da mesma forma de A Fórmula do Amor, o Guia nos traz as verdades universais presentes na literatura. Este livro, mais especificamente, ensina o que os professores politicamente corretos omitem e/ou distorcem da literatura inglesa e americana. Se você ama literatura e percebeu o quão longe os cursos de Letras (dos EUA, do Brasil e do mundo) estão de ensiná-la, leia Elizabeth Kantor urgentemente: não é um livro para falar mal de certos professores, é uma verdadeira introdução à literatura inglesa e americana.


O livro é dividido em três principais partes: o que eles (professores politicamente corretos) não querem que você aprenda com a literatura inglesa, por que eles não querem que você aprenda sobre ela e como você pode ensiná-la a si mesmo. De início, somos introduzidos ao cânone: de Beowulf a Flannery O'Connor. A maior parte do livro é dedicada à discussão sobre o que podemos aprender (mas não estamos) com os grandes autores e poemas ingleses e americanos. Há autores da antiguidade até o século passado, em uma lista completa e irretocável do que não podemos deixar de ver dessa literatura.

Na literatura inglesa antiga, encontramos um amor ao heroísmo há muito esquecido, ou mesmo condenado, pelos gurus da "teoria literária" (o que, na verdade, é marxismo, feminismo e todos os ismos que mais estragam a literatura do que a explicam). A união entre paganismo e cristianismo na literatura antiga trouxe poemas cheios de heróis que nos alertam sobre nossas próprias falhas, nossa indisposição ao sacrifício e falta de admiração a esses homens elevados, assim como refletem a força civilizadora que é o Cristianismo. Já no medievo, temos uma literatura inserida em uma mentalidade completamente religiosa, a exemplo dos Contos da Cantuária, de Chaucer. A sua obra está voltada para a eternidade de tal maneira que os conceitos de liberdade, autoridade e cavalheirismo presentes nela são válidos até hoje e, ao longo da história, proporcionaram muitos avanços além da literatura.

Uma grande época para literatura inglesa foi o Renascimento, por meio de Spenser, Marlowe e Shakespeare. O humanismo cristão estava vivo na sua arte, ainda que não na sua vida. Aqui, a sociedade já não era oficialmente religiosa, tanto que o homem Marlowe era revoltado contra Deus, a verdade religiosa e a virtude, mas "o artista Marlowe sabia que sem tais conceitos, sua arte não poderia ir muito longe". Já William Shakespeare, o maior escritor da língua inglesa, trouxe verdades universais de forma tão profunda na sua obra, que até hoje encontramos atualidade nela, porque mostra e ensina o que, de fato, a natureza humana é. Por isso qualquer pessoa que lê Shakespeare se identifica, porque há muito de ambição, ciúme, morte, casamento, natureza e condição humanas. São os grandes vícios e virtudes humanas de forma bela e poética. Shakespeare escreveu sobre o que é verdadeiro, por isso os que desprezam a verdade o odeiam. Não é à toa que existem inúmeros artigos acadêmicos tentando desmoralizar, corromper, quando não ignorar, toda a sua obra.

Ophelia (personagem da tragédia Hamlet, de William Shakespeare), por John Everett Millais.

No século XVII, o tema da religião volta a ganhar força, pelos grandes Milton, Bunyan, Donne etc. Em Paraíso Perdido, John Milton (que seria acusado hoje de fundamentalista cristão) reescreve a tentação do homem, e seus sonetos destacam os temas da temperança e obediência. "O ideal heróico de Milton é a obediência paciente". Ele também pregou a liberdade intelectual e de imprensa, o que revela ser esta mais cristã do que anticristã, como juram os professores politicamente corretos. No século seguinte, com o advento do iluminismo, temos a era da razão, que todos consideram extremamente revolucionária, mas na qual temos grandes gênios literários que seriam considerados, hoje, muito mais reacionários do que qualquer coisa. Kantor separa quatro: John Dryden, Alexander Pope, Jonathan Swift e Samuel Johnson. Com a literatura inglesa do Iluminismo, aprendemos que "realismo, senso comum e bom humor são mais importantes para a vida do que vitimismo, pensamento positivo e culpa burguesa" (mas não vão te ensinar isso). Contudo, apesar de revigorante, a literatura do século XVIII é muito limitada no que se refere às texturas literárias da literatura renascentista ou da literatura romântica subsequente.

A literatura romântica do século XIX só se comparou à literatura renascentista, e os nomes ingleses que podemos tirar dela são muitos: William Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats, Jane Austen, Dickens e tantos outros. Jane Austen, por exemplo, acho que foi a maior vítima dos delírios do politicamente correto, a ponto de a apontarem como uma autora feminista (olhem só o nível da coisa). Enquanto ela celebra os valores patriarcais, eles acham que ela os condena e este é o centro da sua obra. Assim, ela certamente não é uma autora negligenciada pelos professores modernos, mas sua obra foi distorcida em proporções gigantescas. O pecado individual como causa da miséria humana, o casamento como meta de felicidade, a necessidade dos homens estarem mais no controle e o perigo das "mulheres que falam demais" estão presentes em seus livros não como crítica social, mas como celebração desses valores. Basta lê-la que você percebe, sim, muita ironia e crítica social, não aos valores tradicionais, mas à superficialidade, pretensão, egoísmo masculino, hipocrisia feminina e por aí vai. "Jane Austen não é 'subversiva'. Jane Austen é engraçada." Deste período, outro autor incompreendido (propositalmente mesmo) é Charles Dickens. Seu legado segue o clássico "a mudança começa dentro de casa", mas ainda há quem acredite que ele pregava revolução social. Pelo contrário, de suas obras, tiramos a lição de que até as ações aparentemente boas podem ter consequências catastróficas, até piores do que o que tentavam combater.

Os vanguardistas e estetas do século XX seriam um prato cheio para os amantes da decadência humana - e literária -, se eles não tivessem todos se convertido ao Cristianismo, a exemplo de Oscar Wilde. Assim sendo, temos uma literatura que vai muito além de incomodar e irritar, mas que considera a tradição necessária para a criação da grande arte, como em Evelyn Waugh e T. S. Eliot. E por fim, Kantor seleciona o que de melhor há na literatura americana, embora tão negligenciado pelo professores em troca de baboseiras politicamente corretas das últimas décadas. Poe, Melville, Mark Twain, Dickinson, Whitman, Fitzgerald, Faulkner, Hemingway, O'Connor e outros grandes autores americanos talvez sejam tão esquecidos nos cursos de Letras pelo mal presente no coração humano que eles tanto revelam em suas obras. Elizabeth conclui o cânone inglês e americano da literatura falando sobre a obra de Flannery O'Connor: "Quanto mais distante estivermos de entender o pecado original, verdade primordial da natureza humana, mais violenta deve ser a intervenção da graça - e da literatura - para chamar nossa atenção".

Anne Hathaway interpretando a Jane Austen no filme Amor e Inocência.

Na segunda parte do livro, a autora fala por que esses professores PC não querem que você leia - e aprenda - literatura inglesa e americana. O porquê está no que dizem os alunos manifestantes de Stanford em passeata com Jesse Jackson, em 1967: "Hey, hey, ho, ho, a Cultura Ocidental deve acabar". Se o objetivo é desconstruir conceitos, mudar a sociedade e negar a realidade, somente destruindo a civilização ocidental isso é possível. E a literatura é uma das grandes bases dessa cultura, por isso ou a negligenciam ou a deturpam. E se surgir a questão "mas para que serve mesmo a literatura?", William Faulkner, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de 1950, responde: "Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque entre as criaturas ele tem uma voz inexaurível, mas porque tem uma alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando a coragem, honra, esperança, orgulho, compaixão, piedade e sacrifício que têm sido a glória de seu passado." Com os grandes clássicos da literatura, encontramos beleza, verdade e bondade, o que é preciso esquecer quando se tem como meta destruir uma civilização construída sobre esses pilares.

Por fim, a terceira parte dá algumas dicas para quem quer aprender literatura inglesa e americana, já que ninguém há de ensinar. Estes conselhos são dados pelos próprios grandes autores (bons escritores são sempre bons leitores): leitura atenta ou análise estrutural, assim, nenhum aspecto das obras serão ignorados, já que nenhum é insignificante; e a regra de Reed, que consiste em questionar sobre cada parte das obras que lemos. Também temos alguns passos a seguir para a análise literária de uma obra: 1) uso do dicionário para entender o significado e origem de cada palavra contida, em suma, o domínio do vocabulário e da gramatica; 2) entender um pouco de métrica e rima poética, além dos gêneros literários. Mas, no fim, a melhor forma de se aproximar das obras literárias é decorando os textos, assistindo às peças e conversando sobre os romances. Não há escapatória: para entender uma obra, é necessário entrar nela. Para entender um artista, precisamos ser um pouco artistas também. Decore, atue, recite, crie clubes de leitura, discuta os livros, pense sobre os personagens como se fossem reais. Isso não é bobagem, era exatamente o que Jane Austen fazia.

Essa obra é uma daquelas que o nosso espírito anseia há muito tempo para encontrar e, quando a hora chega, a leitura não é só prazerosa, mas imprescindível para continuarmos a viver. As análises de Elizabeth Kantor sobre a literatura são mais que incríveis, porque ela está atenta a cada detalhe que, muitas vezes, deixamos passar. Ainda que você seja politicamente correto, ainda que tenha birra com a série de "guias politicamente incorretos", não deixe de ler. As grandes verdades universais da literatura estão resumidas nele e, mesmo que as ignoremos, só a quantidade de valiosas dicas de leitura já vale mais que a maioria dos best-sellers que circulam no mercado editorial brasileiro. Que nos voltemos para o poder transformador da literatura de trazer beleza e virtude a esta vida passageira e cheia de superficialidades, pois as "grandes obras de literatura nos ensinam a amar o que é nobre e a desprezar o que é ordinário; elas nos civilizam."



Você pode encontrar essa obra aqui, bem como nas livrarias Saraiva, Amazon, Submarino, Americanas e Cultura.

Dica de filme: La La Land - Cantando Estações

O cinema, assim como a literatura, tem o poder de nos transportar para outros mundos. Sua capacidade de transcender a alma por meio da beleza nos abre os olhos para os nossos próprios sonhos, para todas as possibilidades de vida que só a arte nos proporciona. Os musicais vão além disso, pois inserem música e dança numa cena em que aparentemente não cabia nada disso, o que eleva a sétima arte a outro patamar: a magia de várias artes unidas para nos causar sensações únicas.

Todas as críticas positivas a La La Land - Cantando Estações fazem jus a seu poder sobre nós. Damien Chazelle cumpriu o papel de homenagear os grandes musicais do cinema, numa encantadora declaração de amor ao jazz e ao cinema. Posso dizer que é um filme hipnotizante, que nos leva para dentro dele de fato. Não somos só espectadores diante de La La Land, somos os personagens também, apaixonados e sonhadores.


O filme nos conta a história de Mia (Emma Stone), uma atriz no início de carreira, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que deseja abrir uma casa de jazz para salvar o gênero musical. Sempre se esbarrando por aí, eles acabam se apaixonando e acompanhamos o romance através das mudanças de estação do ano. São dois personagens normais, com sonhos igual a todo mundo, o que é a graça do filme: somos como eles, podemos tanto quanto eles.


Apesar de não me surpreender tanto com a atuação da Emma e do Ryan, amei a química do casal, combinam muito desde "Amor a toda prova". Também acho incrível como o filme retrata os protagonistas como artistas "normais" e isso diz algo muito importante: não é preciso ter nenhum talento grandioso, tudo é possível mesmo com as nossas limitações.


O filme tem um jogo de cores que transmite pura beleza, a iluminação é única, tornando tudo mágico demais. As canções, então, não ficam para trás: Another Day of Sun, A Lovely Night e City of Stars são apaixonantes. As cores, a luz, a beleza, a melodia, tudo é encantador em La La Land. Eu não sou a melhor crítica de cinema do mundo (nem tenho pretensão de ser), mas posso afirmar que, para os apaixonados por Singin' in the rain (Cantando na chuva) como eu, o filme é uma bela homenagem aos musicais clássicos. Quem está cansado de tanto mais-do-mesmo, esta é uma experiência única. Fica o pedido: assistam a La La Land, deixem-se levar pela magia do cinema e sonhem, sonhem sempre.



Resenha: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

A literatura distópica é a queridinha dos blogueiros e booktubers, sem sombra de dúvidas, e comigo não é diferente. 1984 (George Orwell), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess) e o recente Sob Efeito do Nada (Andy Nowicki) fizeram parte das minhas leituras e ganharam meu coração, tornando-me uma grande fã de distopias. Diante disso, é de se estranhar que eu nunca tivesse lido Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, por isso fiz questão de lê-lo logo no início deste ano e posso dizer que tudo o que eu esperava era pouco diante da sua profundidade.

Imagine viver numa sociedade em que não existe família, religião e amor, os valores são completamente invertidos, o sexo e o consumismo são altamente estimulados e todo mundo é feliz, ou melhor, ninguém tem o direito de não ser feliz. É nessa sociedade que vivem os personagens do Admirável Mundo Novo. 

*Imagem retirada do We Heart It.

A história se passa numa Londres futurista, onde as pessoas não mais são frutos da união entre os pais, mas fabricadas em laboratório, para serem exatamente como o governo quer, de tal forma que milhares de pessoas são condicionadas para serem do mesmo jeito. Para isso, existem as Salas de Fecundação, de Predestinação Social e de Decantação, onde são criadas pessoas divididas nas castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Os alfas são feitos para serem os de "melhor qualidade" e os ípsilons são uma espécie de retardados. Apesar disso, todos têm boa aparência, nunca envelhecem e são sempre felizes. Caso surja alguma preocupação, as pessoas sempre podem recorrer ao Soma, uma droga sem efeitos colaterais que acalma a população e a deixa feliz e satisfeita. "Tais são as vantagens de uma educação verdadeiramente científica", é o que dizem os entusiastas deste modelo de sociedade - o que lembra bastante os entusiastas de todas as tiranias que afligiram e afligem o nosso mundo. 

De início, o livro nos apresenta a esse universo novo, depois a história se desenvolve com o surgimento dos personagens: Bernard Marx, um alfa que dizem ter um certo defeito de fábrica, por isso não tem a aparência e personalidade perfeitas dessa casta e não se adapta à nova civilização e, assim, busca autorização para passar as férias numa tal Reserva (Malpaís); Lenina, uma mulher perfeita para os padrões da sociedade e completamente satisfeita com tudo aquilo, que passa a relacionar-se (não amorosamente, claro) com Marx; e John, o Selvagem que eles trazem da Reserva para o mundo novo. As Reservas, tipo as reservas indígenas, são lugares isolados da civilização em que as pessoas ainda preservam os costumes e valores da sociedade pré-revolucionária, ou seja, as pessoas constroem relacionamentos e família, prestam cultos a Deus, lêem os grandes autores antigos, envelhecem, engordam, prezam pelas virtudes humanas... bem, são normais. Mas para o admirável mundo novo são incivilizados, um perigo à estabilidade social.

Quando o Selvagem chega à civilização, vira um espetáculo ao olhos da sociedade, é o foco de olhares admirados e ambiciosos para fazer dele um experimento moderno. Mas ele, apesar de encantado a princípio, enxerga a farsa daquela sociedade e denuncia isso, pregando palavras de liberdade e sensatez, sempre citando Shakespeare. O ponto máximo do livro, a chave para compreender aquela Civilização e todo o mal por trás dela, a meu ver, é o diálogo entre esse Selvagem e o Administrador Mustafá Mond. Nele, compreendemos por que o novo mundo tem pavor a tudo o que é antigo, seja o Cristianismo ou a grande arte. Foi preciso abrir mão de Deus, da arte e do conhecimento para alcançar a felicidade. Contudo, até que ponto a vida sem tempestades, amarguras e solidão é uma vida realmente feliz? Os dois confrontam-se: "- Mas eu gosto dos inconvenientes. - Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente. - Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado." John tem consciência do que importa de verdade na vida, por isso reivindica o próprio direito de ser infeliz.

Ironicamente, essa civilização surgiu com uma promessa de paraíso na Terra, trazida pela figura de Henry Ford (às vezes chamado de Freud, sim, Sigmund Freud), uma espécie de messias, o Transformador do Mundo. Suas ideais se implementaram na sociedade de tal maneira que o fordismo constituía a base da sociedade, sem questionamentos de parte alguma. Uma sociedade estável parece um sonho, não é verdade? Sim, para as mentes tolas, para quem não entendeu nada de como o mundo é, de como as pessoas são e do sentido da vida na Terra. Há quem diga que não há sentido, para esses, talvez um mundo totalitário, sem livre-arbítrio e estupidamente feliz seja a solução, mas não estamos aqui para sermos marionetes de um Estado opressor. Diz o Diretor no livro: "Esse é o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer." É virtuoso e nos faz feliz fazermos o que devemos fazer, mas é o oposto disso ser condicionado a ser e agir conforme as ambições do governo.

Não sei se por eu ler esse livro paralelamente ao livro A Nova Era e a Revolução Cultural, mas foi inevitável não sentir a imensa crítica à Nova Era, a quaisquer ideologias que tragam soluções para todos os males da sociedade e uma ideia de um mundo novo e perfeito, planejado para adequar a sociedade a um sonho aparentemente utópico, no entanto, completamente distópico. No seu artigo Dois estudos sobre Aldous Huxley, Olavo de Carvalho diz: "Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas."

Assim como 1984, Admirável Mundo Novo sai da esfera de um exercício de futurismo para nos chamar a atenção para o potencial autoritário do própria realidade em que vivemos. Oceania não é um possível futuro da humanidade, mas foi daquela maneira que os regimes comunistas e nazifascistas martirizaram todo um povo no período em que Orwell escreveu o livro. Da mesma forma, Huxley alerta sobre uma sociedade tecnológica e industrial que transforma a racionalidade numa religião e a ciência num Deus, o que é um perigo atual e podemos ver isso claramente na hipersexualização, na produção de bebês in vitro, na doutrinação das crianças, da fuga às drogas para esquecer os problemas, tudo é parte da Nova Ordem Mundial, em que a liberdade de escolha foi suprimida em prol da ordem social perfeita. A lógica deste livro não inova para nos amedrontar, mas segue a própria lógica da História.

Todas as distopias têm algo em comum: uma sociedade manipulada, que não raciocina e só reproduz, sem liberdade e estável. A questão é que governo nenhum pode impedir os tempos difíceis, pois são neles que surgem os grandes homens, estes criam tempos bons e é um ciclo sem fim. A história da humanidade é essa, desde os séculos dos séculos, e tentar apagar isso é anular qualquer chance de surgirem bons homens, com honra e coragem, que proporcionem uma felicidade que existe apesar de todo sofrimento e aflição. Sem isso não há crescimento, não há amadurecimento, nem mesmo há humanidade.

Li o livro nesta edição de bolso da Globo. Você pode encontrá-la aqui.

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